Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020
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BrasilMichelle Karen conta como foi o desafio de organizar a obra Criminologia Feminista no Brasil: diálogo com Soraia Mendes

Postado 4 semanas atrás Fonte: Fabricio Magalhāes

Ela é natural de Brasília-DF, possui os títulos de Mestra e Doutoranda em Ciências Criminais, é Coordenadora Adjunta do IBCCRIM-RS,  Coordenadora do Grupo de Estudos em Direito e Criminologia(s) da Escola Superior de Advocacia – ESA/OAB-RS, Coordenadora do Grupo de Estudos em Ciências Criminais e Direitos Humanos do IBCCRIM-RS e Integrante do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Segurança e Administração da Justiça Penal (GPESC/PUCRS), ela é Michelle Karen Batista dos Santos, que aos 27 anos, assumiu a responsabilidade e aceitou o desafio de organizar a obra: Criminologia Feminista no Brasil: diálogo com Soraia Mendes.

Para saber como foi esse desafio de organizar desta obra, o Na Pauta Online, conversou com Michelle Karen, segue entrevista abaixo:

NPO – O que é a obra Criminologia Feminista no Brasil: diálogo com Soraia Mendes?

MK – No ano de 2020, completou 06 anos do lançamento da obra “Criminologia feminista: novos paradigmas”, de autoria da Professora Soraia da Rosa Mendes. Esta obra representou uma revolução paradigmática no campo dos estudos criminológicos críticos, pois emergiu da inconformidade com os processos de produção de conhecimento que pouco ou nada diziam sobre as mulheres como sujeitos históricos repletos de sentidos e significados, bem como sobre suas experiências face ao exercício do poder punitivo. Ao publicar a obra, Soraia nos entregou um referencial criminológico que tirou as mulheres do lugar de objeto ou de elemento incorporado no campo das Ciências Criminais, afirmando a teoria crítica feminista como a responsável por um novo paradigma em ciência.  Portanto, o projeto coletivo que deu origem ao livro “Criminologia feminista no Brasil: diálogos com Soraia Mendes” representa a reunião de escritos que ampliam e também dão novos contornos para a discussão sobre a criminologia feminista no Brasil. É uma celebração que parte da necessidade de afirmar o reconhecimento por uma teoria que atravessou todas nós, e que agora está materializada nessa obra, para ser lida e acolhida por vocês.

NPO – Como foi organizar esta obra e como escolheu as mulheres que estão no livro intitulas por “constelação de mulheres ativistas”?

Soraia Mendes

MK – Organizar a obra representou uma experiência de profunda emoção. A Soraia foi minha orientadora na graduação e no curso dessa relação se tornou uma grande amiga. Ela me auxiliou em muitos processos de desenvolvimento profissional e pessoal, e poder retribuir toda essa dedicação, através dessa publicação, significou revelar publicamente nossas construções para além dos muros da universidade. Posso dizer que foi uma tarefa de bastante responsabilidade também, pois o livro reúne pesquisadoras-professoras que são referências na minha trajetória acadêmica, aproveito para identifica-las: Vilma Piedade, Deise Benedito, Alice Bianchini, Mariana Bazzo, Clara Masiero, Elaine Pimentel, Andressa Andrade, Érika Mendes, Natália Damazio, Vanessa Chiari e Marcelli Cipriani. Talvez eu nunca tenha pensado (apesar de ter idealizado, risos) que eu teria contato direto com essas mulheres, o que foi uma conquista para mim no âmbito profissional. Ser uma obra de celebração às lutas e à produção intelectual da Soraia acabou tornando os processos mais sensíveis, porque ela representa para mim a possibilidade de ser uma mulher potente na vida e na academia. Obras coletivas, no geral, são desafiadoras, pois envolvem o tempo de muitas pessoas, não é atoa que o projeto demorou quase dois anos para ser entregue ao mundo. Mas, de fato, o mais importante foi estabelecer um diálogo entre tantos saberes e experiências. Ter feito parte da consolidação dessa obra representa um grande passo na minha jornada: contribuir para a produção teórica criminológica e feminista que para mim é uma questão política de vida.

NPO – O que é uma Constelação de Mulheres reunidas?

MK – A Soraia se referiu à “constelação de mulheres” quando escreveu o prefácio à obra. Na sequência, a Bruna Zeni, parte essencial do projeto e idealizadora da Blimunda, editora independente feita de e por mulheres, acolheu a expressão e divulgou o lançamento a partir dessa referência. Acredito que tenhamos enxergado em nós um conjunto bem articulado de mulheres que unem teoria e prática nas suas produções de saberes. O nosso encontro proporcionou essa constelação, eu acho. Brilhamos juntas e assim nossa força foi mais uma vez vista e sentida.

NPO – Quais os principais objetivos a serem alcançados com esta obra?

MK – De forma geral, o projeto foi idealizado para ser entregue para o Brasil e contribuir para a (re)construção plural das Ciências Criminais, em especial no que tange a articulação entre as teorias feministas e o pensamento criminológico crítico, uma tarefa essencialmente revolucionária. Nesse sentido, poderia dizer que temos dois objetivos específicos: atualizar a discussão sobre a criminologia feminista no Brasil, deixando claro que não se trata de uma discussão de uma, mas de todas, e colocar as mulheres no centro das produções de saberes críticos, reafirmando que nossas subjetividades não estão apartadas da realidade e das nossas atuações. Não somos neutras! A nossa condição de mulher no mundo faz com que nossa teoria esteja de mãos dadas com a nossa prática militante por outros modos de vida em liberdade.

NPO – Para quem não sabe o significado, você pode explicar o conceito do termo “Criminologia Feminista”?

MK – Como afirma a Soraia, ao escrever a obra “Criminologia Feminista: novos paradigmas”, pensar a condição feminina, seja como autora de crimes, seja como vítima, historicamente se sustentou em paradigmas criminológicos distanciados das perspectivas feministas acerca da realidade. As criminologias, enquanto saberes que dão contornos diversos aos conceitos de crime, criminoso, vítima, sistema criminal, controle social, poder punitivo etc., se desenvolveram hegemonicamente como um discurso “de homens”, “para homens” e “sobre mulheres”. Diante deste cenário, compreendeu-se o quanto as teorias feministas poderiam fornecer instrumentos de análise essenciais para a construção de um saber criminológico que reconheça as mulheres como sujeitos de todos os processos (de vitimização ou de criminalização), tomando as relações de poder e de gênero com mais profundidade nesse campo de conhecimento.

NPO – Como você definiria hoje o Brasil em termos de violência contra a mulher?

MK – Segundo o “Atlas da Violência 2020” publicado pelo IPEA, em 2018, uma mulher foi assassinada no Brasil a cada duas horas, totalizando 4.519 vítimas. Na medida em que a violência se expressa o marcador de raça torna-se mais explícito, pois se verifica que enquanto a taxa de homicídios de mulheres não negras caiu 11,7%, a taxa entre as mulheres negras aumentou 12,4%.  Para mim, existe uma questão central: as violências contra as mulheres, seja letal ou não letal, precisa ser compreendida como parte de uma estrutura que está enraizada em um projeto político de subordinação dos nossos corpos e das nossas vidas. E esse projeto é racista, patriarcal, machista, sexista, capitalista, heterocentrado e conservador. Este é o cenário brasileiro que enfrentamos com resistência!

NPO – O que é preciso ser feito para que os números de violência contra a mulher diminuam?

MK – Poderíamos escrever um livro em torno dessa pergunta, pois de fato é a questão que nos move a construir uma vida livre de violência para todas. E de fato escrevemos (risos). Leiam “Criminologia feminista no Brasil: diálogos com Soraia Mendes”, publicada pela editora Blimunda.

NPO – Quem é Michelle Karen Santos?

MK – Bom, muito além de títulos, eu poderia dizer que a Michelle é resistência. É uma mulher que faz parte do movimento global que busca romper alianças vigentes e alterar o mapa político, afirmando serem os feminismos movimentos potentes capazes de transformar e construírem fortes laços de solidariedade.

NPO – Que mensagem você deixa para as pessoas que estão lendo esta matéria?

MK – Valorizem a produção acadêmica de mulheres e apoiem editoras independentes. No mais, mulheres de todo o mundo, uni-vos. Parceiros de luta, se juntem!

Para quem se interessar em adquirir a obra Criminologia Feminista no Brasil: diálogo com Soraia Mendes, segue o link:

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