Quarta-feira, 08 de Abril de 2020
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Postado 5 anos atrás Fonte: ONOFRE RIBEIRO

No último domingo, assisti no canal da Globonews o programa “Painel”, brilhantemente conduzido pelo jornalista William Waak. “A crise trouxe alguma mudança para o Brasil?”, foi o tema do programa, do qual participaram três importantes debatedores: o cientistas políticos Bolivar Lamounier, Murilo de Aragão, e o professor José Álvaro Moisés, professor de ciência política da Universidade de São Paulo. As análises levaram a dois pontos que gostaria de abordar neste artigo, com ênfase no segundo. O primeiro, foi de que realmente o segundo governo Dilma vai lutar contra si mesmo pra encarar mais três anos e meio de mandato que lhe restam. A presidente, concluíram, gastou todo o seu capital político na eleição e criou um factóide de sucesso que se revelou enorme mentira depois. Paga hoje um preço altíssimo por isso. Porém, o segundo item foi o que mais me chamou a atenção. A ausência de um líder político, institucional ou alguém que seja capaz de conversar com a sociedade e apontar caminhos no meio da crise política que assola o país. Traduzir para uma sociedade perplexa, as perplexidades do sistema político que naufraga como um imenso Titanic. Aqui, puxo a sardinha pra minha conversa. No período da ditadura militar grandes lideranças políticas do país firmaram conversas com líderes acadêmicos das universidades brasileiras e levantavam grandes questões nascidas dentro do pensamento acadêmico, formatado, lógico e fundamentado. A eleição de Fernando Henrique Cardoso, em 1994 a presidente da República, o pensamento acadêmico era relevante e atuante. O Plano Real nasceu dentro do pensamento acadêmico na USP, Unicamp e Fundação Getúlio Vargas. O modelo neoliberal de sua gestão incitou o mundo acadêmico a pensar e objetar, favorecendo muito o Partido dos Trabalhadores que elegeu Lula em 2002. Grandes acadêmicos alimentaram o PT à eleição. De 2003 para cá, as universidades sumiram do mapa do pensamento brasileiro em todas as áreas. A academia deixou de pensar e permitiu que a mediocridade resumisse a sua ação em torno de questões subjetivas como “melhor qualidade do ensino e melhores condições de infraestrutura”. Salários, obviamente. Neste momento em que se discute a imensa Crise-Titanic do país, as universidades federais estão em greve e não refletem minimamente qualquer pensamento filosófico, já que as demais instituições, incluindo o Legislativo, estão moribundas. Tudo isso, sem que se reduzam os custos financeiros das universidades. Ou seja, numa hora cruel da nação, quem deveria pensar não pensa, não fala e não se compromete. As universidades alimentam a mesma mediocridade da política.

 

ONOFRE RIBEIRO é jornalista em Mato Grosso. onofreribeiro@terra.com.br www.onofreribeiro.com.br

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