Quinta-feira, 13 de Agosto de 2020
ENERGISA CORONA

EconomiaSem transparência. BB cede carteira de crédito ao BTG

Postado 2 semanas atrás Fonte: Sindi Bancários ES

A carteira, que tem valor contábil de R$ 2,9 bilhões, foi cedida ao banco cujo cofundador é Paulo Guedes. A operação está sendo interpretada como mais um passo do ministro no sentido de privatizar o BB

 

 

O projeto privatista do governo Bolsonaro, empreendido pelo titular da Economia, Paulo Guedes, está novamente em marcha. A pandemia do novo coronavírus chegou a interromper os planos de Guedes em função da crise que praticamente paralisou a atividade econômica mundial. Indiferente ao fato de a curva da pandemia estar em franca ascensão no Brasil, o ministro afirmou no último domingo, 05, que pretende negociar parcial ou integralmente quatro empresas públicas em até 90 dias. Na mira do ministro ultraliberal podem estar empresas como Banco do Brasil, Caixa, Petrobras, Eletrobrás e Correios

A mais recente investida de Guedes no caminho das privatizações aconteceu dias após o Banco do Brasil anunciar a venda de carteiras de crédito, a maioria em perdas, a um fundo do BTG Pactual, banco cujo ministro é cofundador. Essa é primeira vez que o BB faz a cessão de carteira a um banco que não pertence ao seu conglomerado. A carteira cedida tem valor contábil de R$ 2,9 bilhões e o impacto financeiro da transação será de R$ 371 milhões, antes dos impostos, que serão lançados no terceiro trimestre.

Na avaliação da diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Goretti Barone, a cessão atípica da carteira ao BTG gera no mínimo suspeição pela falta de transparência. “Como não considerar que Guedes é um dos fundadores do BTG e que a operação teve o dedo do ministro? É imperativo que seja feita uma auditoria urgente. Afinal, essa operação envolve um banco público. É obrigação do governo dar total transparência à sociedade”, enfatiza Goretti.

A dirigente afirma que a notícia sobre a operação chegou aos empregados do BB e à opinião pública somente depois que o negócio já havia sido consolidado. Ela cita a economista do Dieese, Cátia Uehara, que também avaliou que faltou transparência no processo de cessão da carteira do BB ao BTG.

Segundo a economista, os bancos, periodicamente, procuram “limpar” seus balanços cedendo créditos podres para empresas no intuito de reduzir custos e o índice de inadimplência. Essas empresas/fundos, explica Uehara, compram essas carteiras e, por meio de um processo chamado securitização, transformam ativos; como cheques, crédito, duplicatas e outros recebíveis em atraso; em um título. Para os compradores, continua a economista, o lucro vem da diferença entre o que eles pagaram ao banco e o que receberão ao cobrar esses recebíveis/dívidas no futuro. “Todavia, no caso da operação realizada pelo BB com o BTG Pactual, não fica claro se o valor da carteira cedida de R$ 2,9 bilhões é justo, pois o BB não explica qual o tipo da carteira. Menciona somente que ela é ‘majoritariamente em perdas’, não havendo transparência na operação”, enfatiza Uehara.

Reação autoritária

Em um canal interno do BB, quando questionado por um funcionário, que argumentou se a transação não estaria atendendo a algum interesse de Guedes, um gestor reagiu de forma totalitária, censora e intimidadora: “Sua colocação não está compatível com o nosso código de conduta, pois traz ilações inaceitáveis. Estou te ligando para entender melhor por que você se permitiu registrar esse comentário”, respondeu o gestor.

Goretti afirma que a reação do gestor à crítica pertinente e justa do empregado reflete a atual política autoritária do banco. João Fukunaga, diretor executivo do Sindicato e coordenador da Comissão de Empresa dos Funcionários do Banco do Brasil (CEBB), disse que há um projeto autoritário no BB comandado a mãos de ferro pelo Paulo Guedes. “Além dos desmandos pouco ortodoxos, a direção do BB tem feito vista grossa para acusações de assédio por parte de gestores contra funcionários e, além de banalizado, tem normatizado esse tipo de prática nefasta. Cobramos que o banco abra um processo de assédio moral contra o gestor pelo comentário”, afirmou Fukunaga, se referindo ao episódio de assédio do gestor contra o empregado.

“Esse tipo de operação, da maneira como ocorreu, sinaliza que há um processo de privatização em curso. A venda do BB seria desastrosa não só para os seus empregados, mas para a sociedade de maneira geral”, aponta Goretti. Ela diz que além de ser referência no crédito agrícola, o banco ajuda a compor o orçamento público federal em áreas como saúde, educação e segurança pública. “Entre 2000 e 2019, o BB repassou R$ 56.793 bilhões à União. Só em 2019 foram repassados R$ 3,7 bilhões. A sociedade precisa entender a importância do BB para o desenvolvimento do país e lutar ao lado dos bancários para defender esse importante patrimônio”, enfatiza a dirigente.

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