Sexta-feira, 03 de Abril de 2020
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Postado 5 anos atrás Fonte: Gabriel Novis Neves

É designado gramaticalmente como o tempo entre o nascer e o morrer. Isso, na nossa cultura ocidental cristã. Como a vida não é um longo caminho a percorrer como nos ensina, e sim, um ciclo que contém o mistério do tempo do seu fechamento, há pessoas vitimadas por sofrimentos aceitáveis ou evitáveis, muitos por antecipação. Invadimos o terreno dos desprazeres, como a perda de um ente querido. Durante a espera da finitude muitos entram em sofrimento. Depois de concretizado o fechamento do ciclo vital, esse padecimento costuma se exacerbar, levando a vítima desse distúrbio psicológico a um permanente estado de debilidade emocional. Mesmo conhecendo os mecanismos da morte causadoras da doença do luto, muitas vezes fracassamos diante da realidade. Freud afirmava - baseado em experiência própria de consultório - que o sofrimento do luto tinha a duração de um ano, fato este sem comprovação científica. O sofrimento do luto pode ser agudo logo após a partida da pessoa amada, ou tardia. Pelas evidências, o luto tardio tende à cronicidade, e seu tratamento é muito difícil, e depende de grandes estímulos externos. O sofrimento agudo é causado por um trauma psicológico tão forte que essas vítimas, quando restabelecidas desse verdadeiro nocaute emocional, estão curadas. “Porque andei sempre sobre meus pés, doeu-me às vezes viver”. Mia Couto. A vida deve prosseguir, porém, muitos estão envolvidos nos ditames sociais e hipócritas das regras comportamentais. As religiões, de um modo geral - particularmente a judaica cristã - estão impregnadas de mitos e dogmas e que no conjunto nos transformam em grandes culpados. Esses sentimentos vão se arraigando pela vida afora e são, em muitos casos, responsáveis por inúmeras doenças psicossomáticas. A convivência com o conhecido "pecado original" é a principal causadora dos distúrbios afetivo-sexuais que infligem muitas dores às pessoas. O sofrimento sem cumplicidade é insuportável, mas assim mesmo temos de continuar a viver. Essa reversão pode acontecer sobre as bênçãos da sorte, a proteção do imponderável e, na maior parte das vezes, diante de uma boa terapia. Não é fácil viver, embora, poetas e músicos têm na arte de viver um dos seus temas prediletos. “O pior sofrimento está na solidão que o acompanha”. André Malraux.

 

Gabriel Novis Neves é médico

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