Venezuela Soberana, Pero No Mucho: a Aliança Ambígua com Trump
CARACAS — A Venezuela despertou nesta quarta-feira, 29 de janeiro de 2026, sob uma nova e curiosa normalidade política. Depois de anos de sanções severas e de semanas marcadas por intervenção direta dos Estados Unidos, a autorização para a reabertura do espaço aéreo — concedida por Donald Trump — e os elogios públicos do presidente americano à condução política de Delcy Rodríguez desenham um país em transição delicada.
Entre o discurso de soberania nacional e a realidade de uma tutela econômica e militar exercida por Washington, Caracas tenta redefinir seu lugar no tabuleiro internacional.
Plano de Defesa e a Sombra do Pentágono
No centro desse rearranjo está o anúncio de um novo Plano de Defesa Nacional, apresentado pela presidente interina Delcy Rodríguez. Oficialmente, a iniciativa tem como objetivo “proteger a integridade territorial e institucional da Venezuela” após a captura de Nicolás Maduro.
Na prática, porém, analistas internacionais enxergam o plano como um movimento simbólico: uma tentativa de preservar a moral das Forças Armadas Nacionais Bolivarianas (FANB) enquanto o país passa a aceitar, de forma tácita, diretrizes estratégicas vindas diretamente do Departamento de Estado dos EUA.
Surge, assim, o conceito que já circula nos bastidores diplomáticos: o da “soberania vigiada”. Caracas anuncia políticas autônomas, mas é Washington quem define o ritmo da abertura comercial, da circulação aérea e das garantias de segurança.
Petróleo: a Moeda da Nova “Amizade”
A mudança brusca no discurso de Trump — que saiu de ameaças de destruição total para declarações de que estaria “amando a Venezuela” — tem uma base concreta e previsível: o petróleo.
Ao afirmar que o país “entregará seus recursos para se reconstruir”, o presidente americano deixa claro que a independência política venezuelana encontra limites nos contratos energéticos e na geopolítica dos hidrocarbonetos. A reabertura do espaço aéreo é vista como o primeiro passo para o retorno de executivos de grandes petroleiras americanas a Caracas, agora sem os entraves logísticos impostos durante os anos de bloqueio.
A Voz das Ruas
Para o venezuelano comum, o fim do bloqueio aéreo representa um alívio imediato — tanto humanitário quanto econômico. Ainda assim, o discurso oficial de soberania soa agridoce para parte da população.
“Estamos felizes pelos voos, mas sabemos quem está pilotando o avião agora”, comentou um comerciante da região de Sabana Grande. A frase resume um sentimento recorrente: a percepção de que o país deixou uma autocracia isolada para ingressar em uma democracia fortemente condicionada por interesses externos.






