Várzea Grande: o novo com cheiro de déjà vu e a reabilitação dos ex-aliados
VÁRZEA GRANDE (MT) — A promessa de “varrer o coronelismo” em Várzea Grande parece ter esbarrado em um obstáculo clássico da política local: a dificuldade de governar sem recorrer a quem conhece, de fato, os atalhos do Paço Couto Magalhães. Eleita sob o discurso da ruptura, a prefeita Flávia Moretti (PL) dá mais um passo em direção a uma continuidade seletiva ao nomear o ex-vereador Ícaro Reveles como subsecretário de Governo.
O retorno dos que não foram
Ícaro Reveles é nome conhecido no cenário político várzea-grandense. Ex-aliado de primeira hora do ex-prefeito Kalil Baracat (MDB), ele assume agora o posto de “número dois” da estratégica Secretaria de Governo. A nomeação não é um caso isolado — ao contrário, reforça um padrão que vem causando desconforto e críticas dentro da ala mais ideológica do Partido Liberal.
Ícaro passa a atuar diretamente sob o comando de Silvio Fidelis, outro remanescente da gestão Kalil que Flávia Moretti não apenas manteve, como alçou ao núcleo duro do governo. Para observadores mais atentos — e também para os mais irônicos — a Secretaria de Governo começa a se assemelhar a um “puxadinho de luxo” da administração que a prefeita atacou duramente durante a campanha.
Entre o discurso e a prática
Enquanto Flávia Moretti segue utilizando redes sociais e entrevistas para denunciar uma suposta “herança maldita” — que inclui dívidas de precatórios superiores a R$ 700 milhões e um rombo total que ultrapassaria R$ 1 bilhão —, as escolhas de seu secretariado contam uma história menos disruptiva.
A pergunta que ecoa nos corredores da prefeitura é inevitável: como sustentar a narrativa de que a gestão anterior foi desastrosa se operadores centrais daquela mesma máquina administrativa continuam ocupando posições estratégicas no governo atual?
Fritura no PL e o cálculo político
A manutenção de Silvio Fidelis já havia provocado uma crise interna no PL. O presidente estadual da sigla, Ananias Filho, chegou a declarar-se “envergonhado” com as escolhas da prefeita. Flávia Moretti, no entanto, ignorou os apelos partidários e reafirmou que a composição do staff é uma “prerrogativa exclusiva” do Executivo.
Com a chegada de Ícaro Reveles, a prefeita sinaliza de forma ainda mais clara que prefere o pragmatismo e a habilidade política à pureza ideológica exigida por parte de seus correligionários. No tabuleiro político de Várzea Grande, o jogo mudou de cor — mas as peças, pouco a pouco, voltam a ser as mesmas.
No fim das contas, a tentativa parece ser a de imprimir uma sensação de normalidade administrativa que, para muitos, soa mais como a extensão de um governo derrotado nas urnas em outubro.
Em Várzea Grande, ao que tudo indica, o “novo” é apenas o velho — agora vestindo a camisa do PL.






