Quando o Pão Não Basta: A Crise de Confiança no Governo Lula 3

O aumento nos gastos sociais já não é suficiente para blindar a popularidade do governo diante de novos escândalos de corrupção e da sensação de desgaste ético.

O tradicional binômio da política assistencialista brasileira — benefícios sociais em troca de estabilidade social e apoio político — parece estar chegando ao seu limite. No terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a estratégia de ampliar programas de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), enfrenta uma barreira crescente: a desconfiança da opinião pública.

Para 2026, os dois programas devem consumir juntos mais de R$ 300 bilhões do Orçamento federal. Embora essenciais para milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade, os gastos sociais já não conseguem neutralizar o impacto político de sucessivos episódios de suspeitas de corrupção e má gestão.

A corrupção volta ao centro do debate

Apesar das operações e medidas preventivas conduzidas pela Controladoria-Geral da União, a percepção popular aponta para um cenário de deterioração ética.

Pesquisas recentes indicam que entre 45% e 46% dos brasileiros acreditam que a corrupção aumentou durante a atual gestão. Ao mesmo tempo, o país permanece estagnado no Índice de Percepção da Corrupção, elaborado pela Transparência Internacional. Em 2025, o Brasil registrou 35 pontos, uma pontuação considerada baixa no ranking global.

Casos recentes reforçam essa percepção. Entre eles, investigações envolvendo fraudes bilionárias no sistema previdenciário, com prejuízos estimados em cerca de R$ 6 bilhões ao INSS, além de suspeitas envolvendo o Banco Master, que alimentaram críticas da oposição e aumentaram a pressão de órgãos de controle.

O limite do assistencialismo

A crescente insatisfação revela um fenômeno político relevante: a transferência de renda continua sendo vital para milhões de famílias, mas já não é suficiente para conter a indignação diante da percepção de mau uso do dinheiro público.

Levantamentos do instituto AtlasIntel apontam que a desaprovação ao governo ultrapassou 50% em determinados momentos recentes, especialmente após a repercussão de escândalos ligados ao setor previdenciário.

Ao mesmo tempo, o ambiente econômico também pesa. Analistas projetam desaceleração da atividade econômica em 2026, com pressão inflacionária persistente e juros elevados. Para grande parte do eleitorado, o benefício recebido no fim do mês parece cada vez menor diante do aumento do custo de vida — enquanto notícias de desvios bilionários continuam dominando o noticiário.

Mais que renda: a demanda por integridade

O cenário sugere que a política de transferência direta de renda, embora socialmente necessária, não é mais capaz de sustentar sozinha o capital político de um governo.

Após décadas marcadas por escândalos de grande escala, parte significativa da sociedade brasileira passou a exigir algo além de assistência econômica: transparência, responsabilidade fiscal e integridade institucional.

Com um orçamento cada vez mais rígido — no qual cerca de 92% das despesas são obrigatórias — e com investigações que frequentemente atingem aliados políticos, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva entra no ciclo eleitoral de 2026 diante de um desafio central: convencer o eleitorado de que é possível manter a agenda social sem repetir os vícios políticos que marcaram períodos anteriores da política brasileira.