Machismo na política: O Custo de ser mulher numa mesa que não nos espera

Larissa Malheiros

É preciso dizer: o machismo na política ainda existe. No entanto, é justo observar que existem aqueles que dão abertura, porque reconhecem que há mulheres com conhecimento e valor que agregam e qualificam o espaço político. Mas não foi sobre esses que vivi a situação que me marcou.

Lembro de um episódio, não tão distante, que escancara o machismo ainda entranhado em certos espaços. Pela segunda vez, sentei para dialogar com um homem reverenciado como "grande figura de bastidor". Levei o que tenho de mais valioso: análise, repertório estratégico, leitura de cenário e anos de experiência. Saí de lá com a dignidade em frangalhos. Não porque me diminuíram. Mas porque tentaram.

Ele desdenhou. Não com palavras diretas, mas com a violência sutil de quem se recusa a escutar. Cada análise que apresentei foi recebida com um silêncio que deslegitima. Cada dado, tratado como devaneio. Cada diagnóstico sobre comunicação e articulação, descartado antes de ser considerado. Ficou implícito, nas entrelinhas, que minha palavra não tinha lastro. Que eu e o nada éramos equivalentes naquela sala.

Minha trajetória foi ignorada. Minha experiência, anulada. A suspeita que pairava era rasteira: que eu estava ali pelo dinheiro dele. Não estava. Estava para ofertar trabalho. E trabalho, por definição, tem custo. Sempre dentro da legalidade, sempre dentro da técnica. Mas sequer chegamos ao mérito do valor. Interrompi. Agradeci, levantei e saí. Porque há humilhações que a gente não negocia.

Naquele instante, compreendi com o corpo o que é ser mulher empresária na política. O peso de ter decisões e ser tratada como intromissão. Saí arrasada, sim. Mas saí. E é nessa saída que mora a diferença entre quem se submete e quem se posiciona.

O machismo na política não se revela apenas na negativa de cadeiras ou no microfone que falha. Ele mora no deboche contido quando uma mulher articula. No desvio de olhar quando ela expõe dados. Na presunção automática de que sua presença exige contrapartida que não seja profissional. É uma pedagogia da desqualificação.

Homens de bastidor se especializaram em colecionar mulheres para a fotografia. Servimos para a cota, para o discurso, para o álibi de diversidade. Mas quando a mesa exige escuta, quando o jogo pede inteligência, a porta se fecha. Currículo vira ruído. Repertório vira suspeita.

E o mais perverso: eles acreditam que estão salvando a política de "aventureiras". São amadores da democracia, reféns de uma lógica anacrônica onde o conhecimento feminino é lido como insubordinação.

Cidade nenhuma avança enquanto seus articuladores decidirem, por critério de gênero, quem tem autoridade para pensar o poder. Política não é confraria. É confronto de competência, de projeto, de visão. E nesse campo, mulheres não têm déficit.

Por isso, a lição que fica é esta: nunca se diminuir. O desdém alheio mede o tamanho de quem desdenha, não de quem é alvo. Se a tentativa é nos fazer menores, a resposta é ocupar mais espaço. Com texto, com trabalho, com voz.

Saí daquela sala com a sensação de ter sido apequenada. Recuso-me a permanecer assim. Porque a maior derrota do machismo é a mulher que nomeia a violência, reorganiza a própria postura e volta para a disputa. Mais preparada. Mais consciente do seu valor.

Dinheiro diferencia patrimônio. Conhecimento diferencia gente.

Eles que se acostumem. Nós não pediremos licença para pensar política. Nós vamos exercê-la.

Larissa Malheiros
Empresária e Jornalista política