Pivetta promete ofensiva contra facções, mas Mato Grosso segue entre os estados com maior taxa de feminicídios do país
Governador afirma que Estado "não permitirá" avanço do crime organizado e cita redução das mortes violentas; Anuário da Segurança Pública mostra melhora em alguns indicadores, mas alerta para alta da violência contra mulheres.
O governador Otaviano Pivetta (Republicanos) afirmou nesta sexta-feira (24), durante a posse de novos policiais civis, que Mato Grosso manterá uma política de enfrentamento rigoroso às facções criminosas e garantiu que o Estado não permitirá a expansão do chamado "estado paralelo".
Segundo o governador, a criação da Secretaria de Estado de Justiça (Sejus), responsável pela gestão do sistema penitenciário e pelas ações voltadas ao combate às organizações criminosas, fortaleceu a atuação das forças de segurança.
"Com as forças que temos, vamos prender e punir. (...) Não temos território dominado pelo estado paralelo e nem vai ter. Nós vamos para cima e vamos fazer com que a criminalidade diminua", declarou.
A fala de Pivetta acompanha dados apresentados pelo próprio Governo de Mato Grosso, que apontam redução de aproximadamente 23% nas mortes violentas após a reestruturação da política de segurança, colocando o Estado entre os que mais reduziram esse tipo de crime no país.
Apesar do discurso otimista do Executivo, os números mais recentes do 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública revelam que a violência continua preocupante em um dos indicadores mais sensíveis: o feminicídio.
Segundo o levantamento, Mato Grosso registrou 53 feminicídios em 2025, contra 47 no ano anterior, um crescimento de aproximadamente 11%. A taxa estadual chegou a 2,7 feminicídios para cada 100 mil mulheres, a terceira maior do Brasil, ficando atrás apenas de Acre e Rondônia.
Outro dado chama atenção: 55,8% das mulheres assassinadas no Estado foram vítimas de feminicídio, demonstrando que mais da metade das mortes femininas ocorreram em contexto de violência doméstica ou de gênero.
Os números mostram ainda uma aparente contradição. Enquanto os homicídios de mulheres caíram levemente — de 99 para 95 casos —, os feminicídios aumentaram. Na prática, isso significa que diminuíram algumas mortes femininas relacionadas à criminalidade em geral, mas cresceram os assassinatos motivados pela condição de gênero, geralmente praticados por companheiros ou ex-companheiros.
O cenário estadual acompanha uma tendência nacional. O Anuário aponta que o Brasil registrou, em 2025, a menor taxa de mortes violentas dos últimos 13 anos, ao mesmo tempo em que bateu um novo recorde de feminicídios, com 1.571 mulheres assassinadas, alta de 4% em relação ao ano anterior.
Especialistas do Fórum Brasileiro de Segurança Pública destacam que a redução dos homicídios demonstra avanços nas políticas de repressão ao crime, mas alertam que a persistência do crescimento dos feminicídios evidencia que o combate à violência doméstica exige estratégias específicas, como prevenção, proteção às vítimas, fiscalização do cumprimento de medidas protetivas e resposta rápida das instituições.
Assim, embora o discurso do governador encontre respaldo nos indicadores de redução das mortes violentas e no fortalecimento das ações contra o crime organizado, os dados mostram que Mato Grosso ainda enfrenta um dos maiores desafios do país na proteção às mulheres, permanecendo entre os estados com as mais elevadas taxas de feminicídio do Brasil.






