Mesmo com sinais de Alzheimer, a alimentação ainda pode proteger o cérebro

Estudo mostra que uma dieta de melhor qualidade, especialmente com menor potencial inflamatório, está associada a menor risco de demência até entre pessoas que já apresentam alterações biológicas relacionadas à doença

Risco não é destino: hábitos de vida podem continuar influenciando a saúde cerebral mesmo quando alterações associadas ao Alzheimer já estão presentes

Durante muito tempo, a doença de Alzheimer foi vista como uma consequência quase inevitável do envelhecimento e da genética. Hoje, a ciência apresenta uma visão mais ampla: ter predisposição ou apresentar alterações biológicas relacionadas à doença não significa, necessariamente, desenvolver demência.

Um estudo publicado no JAMA Network Open acompanhou 1.865 adultos suecos com 60 anos ou mais, todos sem demência no início da pesquisa. Durante até 15 anos de acompanhamento, 240 participantes desenvolveram a doença.

Além dos hábitos alimentares, os pesquisadores analisaram três biomarcadores sanguíneos relacionados à saúde cerebral: p-tau217, associada às alterações típicas do Alzheimer; NFL, relacionada à lesão neuronal; e GFAP, ligada à ativação ou ao dano de células de suporte do cérebro.

O resultado que mais chamou a atenção apareceu justamente entre os participantes que apresentavam níveis elevados desses biomarcadores. Nesse grupo, uma alimentação com menor potencial inflamatório esteve associada a uma redução de 21% a 29% no risco de demência, dependendo do marcador analisado.

É importante, porém, interpretar o resultado com cautela. O estudo foi observacional e, portanto, demonstra uma associação, mas não comprova que a alimentação, isoladamente, tenha causado a redução do risco.

Ainda assim, a pesquisa reforça uma mensagem relevante: mesmo quando alterações silenciosas relacionadas ao Alzheimer já estão presentes, o estilo de vida pode continuar influenciando a trajetória do envelhecimento cerebral.

O cérebro não envelhece sozinho

A doença de Alzheimer pode começar biologicamente muitos anos antes do surgimento dos primeiros sintomas. Entretanto, nem todas as pessoas que apresentam alterações em biomarcadores desenvolverão demência.

Entre a predisposição e o aparecimento da doença existe uma combinação de fatores que envolve saúde cardiovascular, metabolismo, sono, atividade física, alimentação, audição, visão, estímulos intelectuais e convivência social.

O cérebro depende da mesma circulação sanguínea que abastece o restante do organismo. Por isso, hipertensão, diabetes, colesterol elevado, obesidade visceral, tabagismo e sedentarismo não representam riscos apenas para o coração.

Essas condições também podem prejudicar os vasos sanguíneos cerebrais e tornar o cérebro mais vulnerável aos processos de neurodegeneração.

Cuidar do coração, portanto, também é uma forma de cuidar da memória.

O que significa ter uma alimentação com menor potencial inflamatório?

Não existe um alimento isolado capaz de “desinflamar” o cérebro. O possível benefício está relacionado, principalmente, ao padrão alimentar mantido ao longo do tempo.

De modo geral, uma alimentação favorável à saúde cerebral prioriza:

verduras e legumes;
frutas;
feijões e outras leguminosas;
castanhas e sementes;
cereais integrais;
peixes;
azeite de oliva;
boas fontes de proteína.

Ao mesmo tempo, recomenda-se reduzir a frequência de ultraprocessados, bebidas açucaradas, carnes processadas, frituras, excesso de açúcar e consumo elevado de álcool.

Esse padrão alimentar pode contribuir para o controle da glicemia, da pressão arterial, do colesterol e do peso, favorecendo também a saúde vascular e metabólica.

O objetivo não é ter uma alimentação perfeita todos os dias. A diferença está na qualidade das escolhas repetidas durante meses e anos.

Até 45% dos casos de demência podem ser prevenidos ou adiados

A Comissão Lancet de 2024 estimou que aproximadamente 45% dos casos de demência poderiam ser prevenidos ou adiados por meio do enfrentamento de fatores de risco modificáveis ao longo da vida.

Entre esses fatores estão hipertensão, colesterol LDL elevado, diabetes, obesidade, sedentarismo, tabagismo, consumo excessivo de álcool, isolamento social e perdas auditivas e visuais não tratadas.

Isso não significa que todos os casos de demência sejam evitáveis. Idade, genética e características individuais continuam tendo papel importante.

A estimativa mostra, porém, que existe uma parcela relevante do risco sobre a qual é possível agir — e que a prevenção não deve começar apenas na velhice.

A ciência exige equilíbrio

Os resultados são promissores, mas não permitem transformar alimentação em promessa de cura ou garantia contra o Alzheimer.

Pessoas que mantêm uma alimentação de melhor qualidade também podem apresentar outros hábitos favoráveis, como maior prática de exercícios, melhor sono, menor consumo de cigarro e maior acompanhamento médico. Mesmo com ajustes estatísticos, essas diferenças podem influenciar os resultados de estudos observacionais.

Além disso, um ensaio clínico sobre a dieta MIND, publicado em 2023, não encontrou diferença significativa na cognição ou nas imagens cerebrais após três anos quando comparou a dieta MIND a outra intervenção alimentar com redução moderada de calorias. Os dois grupos, entretanto, apresentaram melhora cognitiva.

Por isso, uma alimentação saudável deve ser entendida como parte de uma estratégia de prevenção, e não como tratamento isolado, cura ou substituto da avaliação médica.

Como proteger o cérebro na prática?

A estratégia mais consistente envolve diferentes hábitos ao longo da vida:

manter pressão arterial, glicemia e colesterol controlados;
praticar exercícios aeróbicos e musculação;
priorizar alimentos naturais ou minimamente processados;
garantir ingestão adequada de proteínas;
cuidar da qualidade do sono e investigar possíveis distúrbios, como a apneia;
evitar o tabagismo e o consumo excessivo de álcool;
tratar perdas auditivas e visuais;
preservar vínculos sociais;
manter atividades de leitura, aprendizado e outros estímulos intelectuais;
procurar avaliação médica diante de esquecimentos persistentes ou mudanças de comportamento.

Nenhuma dessas medidas representa uma garantia individual contra a doença. O objetivo é reduzir riscos modificáveis e preservar a saúde cerebral pelo maior tempo possível.

Risco não é destino

A principal mensagem que emerge desse conjunto de evidências é simples: a presença de alterações biológicas não representa uma sentença inevitável.

Mesmo diante de uma maior vulnerabilidade, alimentação, movimento, sono e controle dos fatores cardiometabólicos podem continuar fazendo parte de uma estratégia de proteção ao longo do envelhecimento.

Nenhum alimento isolado salvará o cérebro. Nenhum suplemento substitui uma alimentação adequada. E nenhum exame deve ser interpretado fora da história clínica completa de cada pessoa.

A proteção da memória é construída de maneira semelhante à proteção do coração: com ciência, acompanhamento, personalização e constância.

Saúde não é sorte. É rotina.

Dr. Max Wagner de Lima
Cardiologista — CRM-MT 6194 | RQE 2308
Fellow da European Society of Cardiology
Atuação em prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e longevidade

Maristela Luft
Nutricionista e Mestre em Metabolismo