DE BERÇO FAMILIAR A GABINETE TÉCNICO: O HISTÓRICO DE POLÊMICAS E DINHEIRO VIVO EM VÁRZEA GRANDE


A sucessão de episódios envolvendo pessoas próximas à prefeita de Várzea Grande, Flávia Moretti, colocou novamente a administração municipal no centro do debate político e jurídico. Em pouco mais de um ano, dois casos envolvendo circulação de dinheiro em espécie e imagens divulgadas publicamente passaram a integrar o ambiente de crise que cerca a gestão.

De um lado, o empresário Carlos Alberto de Araújo, conhecido como Carlinhos, marido da prefeita. De outro, o vereador Rogério de França Martins, o “Rogerinho da Dakar”, que deixou a presidência do Departamento de Água e Esgoto de Várzea Grande (DAE-VG) e, posteriormente, passou a exercer a liderança do governo na Câmara Municipal.

Embora sejam episódios distintos, os dois casos têm elementos em comum: vídeos ou imagens que ganharam ampla repercussão, grandes quantias em dinheiro vivo, justificativas relacionadas a atividades privadas e o envolvimento do Ministério Público em diferentes frentes de apuração.

O PRIMEIRO EPISÓDIO: CARLOS ALBERTO DE ARAÚJO, O “CARLINHOS”

O primeiro grande desgaste envolvendo o círculo mais próximo da prefeita ocorreu ainda no início da gestão.

Carlos Alberto de Araújo, marido de Flávia Moretti, chegou a ocupar um cargo de destaque na administração municipal logo após a vitória eleitoral da esposa. A permanência, porém, foi curta.

Em fevereiro de 2025, o Ministério Público de Mato Grosso apontou a existência de nepotismo e determinou medidas que resultaram na saída de Carlinhos do cargo.

A história voltaria a ganhar repercussão mais de um ano depois.

Em maio de 2026, um vídeo divulgado pela imprensa local mostrou o empresário manuseando e contando grandes volumes de dinheiro em espécie, com cédulas de R$ 50 e R$ 100. A quantia foi estimada em aproximadamente R$ 300 mil.

A divulgação das imagens provocou novos questionamentos e levou o caso ao âmbito eleitoral. O Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso determinou o encaminhamento das mídias ao Ministério Público Eleitoral para verificar se os valores poderiam ter alguma relação com eventual caixa dois ou outras irregularidades eleitorais.

O episódio também ganhou contornos nas redes sociais, com a circulação de memes e “figurinhas” de WhatsApp relacionadas ao vídeo, contra as quais o empresário chegou a buscar medidas judiciais.

O SEGUNDO EPISÓDIO: ROGÉRIO DE FRANÇA MARTINS, O “ROGERINHO DA DAKAR”

Quando o caso envolvendo o marido da prefeita ainda permanecia no radar político, outro episódio envolvendo dinheiro em espécie trouxe novo desgaste à administração municipal.

Em março de 2026, Rogério de França Martins, vereador e empresário conhecido como “Rogerinho da Dakar”, assumiu a presidência do DAE-VG por indicação da prefeita Flávia Moretti.

A escolha ocorreu em um momento de forte pressão sobre o sistema de abastecimento e saneamento de Várzea Grande, tornando o vereador uma das figuras de maior visibilidade da administração na área.

Cinco meses depois, em agosto, imagens que circularam nas redes sociais mostraram Rogério recebendo e manuseando maços de dinheiro. Nas gravações, ele aparece guardando parte das cédulas e deixando o local com uma sacola.

A repercussão foi imediata e levou o Ministério Público a recomendar a adoção de providências administrativas para apurar a conduta do então diretor-presidente do DAE.

A defesa sustenta que as imagens estariam relacionadas a uma atividade de natureza privada e comercial, sem relação com a administração pública.

DA PRESIDÊNCIA DO DAE À LIDERANÇA DO GOVERNO

A resposta política ao episódio também chamou atenção.

Rogério deixou o comando do DAE-VG, mas não se afastou da estrutura política de sustentação da prefeita. Pouco depois, passou a ocupar a função de líder do governo na Câmara Municipal.

A mudança abriu uma nova frente de discussão entre os vereadores. Enquanto aliados defendem a manutenção do parlamentar na articulação política da gestão, integrantes da oposição passaram a questionar se a troca de função representa apenas uma mudança administrativa ou se também pode funcionar como uma forma de preservação da influência política do vereador enquanto os fatos são apurados.

DOIS CASOS, UMA MESMA CRISE DE IMAGEM

Apesar de envolverem pessoas e circunstâncias diferentes, os episódios apresentam algumas semelhanças que passaram a alimentar o debate político em Várzea Grande.


A PRESSÃO AGORA SE DESLOCA PARA A CÂMARA

Com os dois episódios ainda produzindo repercussões jurídicas e políticas, a Câmara Municipal de Várzea Grande passou a ocupar posição central na crise.

Vereadores da oposição discutem medidas para cobrar esclarecimentos sobre a permanência de Rogério na base governista e sobre os desdobramentos das investigações.

O ponto mais sensível do debate é justamente a coincidência entre a saída do vereador do comando do DAE e sua ascensão à liderança do governo na Câmara.

Para a oposição, a mudança precisa ser analisada à luz das investigações em andamento. Para a base governista, trata-se de uma decisão política e administrativa, sem que isso represente qualquer conclusão sobre eventual responsabilidade nos fatos investigados.

Até o momento, as imagens e denúncias mencionadas nos dois episódios não equivalem, por si só, a uma condenação. As responsabilidades individuais deverão ser definidas pelas autoridades competentes após o devido processo de apuração.

O que já está consolidado, porém, é o impacto político. Em um intervalo de pouco mais de um ano, dois nomes ligados diretamente à estrutura de poder de Flávia Moretti passaram a enfrentar forte exposição pública por episódios envolvendo dinheiro vivo.

E, enquanto as investigações avançam, a crise deixa de ser apenas uma sucessão de vídeos e passa a representar um dos principais desafios políticos da atual administração de Várzea Grande.