Pesquisa eleitoral nem sempre acerta: histórico mostra erros e acertos nas últimas eleições

As pesquisas eleitorais são importantes para medir o humor do eleitorado, mas a história recente das eleições brasileiras mostra uma realidade que precisa ser lembrada: pesquisa não é resultado de eleição — e nem sempre acerta o vencedor ou a dimensão da votação.

Em diferentes pleitos, institutos tradicionais conseguiram identificar corretamente a tendência geral da disputa, mas também registraram diferenças expressivas em relação ao resultado das urnas. Em alguns casos, candidatos que apareciam na liderança terminaram derrotados; em outros, o vencedor foi identificado corretamente, mas sua votação ficou muito acima ou abaixo da projeção.

O primeiro ponto importante é separar duas coisas: acertar quem está na frente e acertar os percentuais. Uma pesquisa pode acertar o líder da disputa e, ainda assim, errar significativamente a votação individual dos candidatos.

2022: pesquisa acertou o segundo turno, mas subestimou Bolsonaro

O primeiro turno presidencial de 2022 é um dos exemplos mais conhecidos.

Na véspera da votação, o Datafolha apontava Lula com 50% dos votos válidos e Jair Bolsonaro com 36%. O Ipec apresentava 51% para Lula e 37% para Bolsonaro.

Nas urnas, Lula terminou com 48,4%, enquanto Bolsonaro alcançou 43,2%.

Ou seja: os dois principais institutos acertaram a liderança de Lula e a realização do segundo turno, mas erraram a dimensão da votação de Bolsonaro. O candidato do PL terminou com aproximadamente 6 pontos percentuais a mais do que indicavam os últimos levantamentos.

A própria análise posterior do Datafolha apontou a possibilidade de movimentações de última hora, enquanto o Ipec citou a migração de votos de candidatos como Ciro Gomes e Simone Tebet e eleitores ainda indecisos.

Nesse caso, portanto, pode-se dizer que houve acerto na tendência principal, mas erro relevante na magnitude dos votos.

E no segundo turno?

A fotografia foi diferente.

Na véspera do segundo turno de 2022, o Datafolha indicava Lula com 52% dos votos válidos, contra 48% de Bolsonaro. O resultado oficial foi 50,9% para Lula e 49,1% para Bolsonaro.

A diferença entre pesquisa e urna ficou dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.

Já o Ipec apontava 54% para Lula e 46% para Bolsonaro. Nesse caso, a diferença de três pontos percentuais para cada candidato ficou acima da margem de erro.

Dos quatro principais levantamentos divulgados na véspera, o Paraná Pesquisas foi o que mais se aproximou do resultado final, enquanto o Ipec foi o único apontado como fora da margem de erro para os dois candidatos.

2018: Dilma liderava e terminou em quarto

A eleição para o Senado em Minas Gerais, em 2018, apresenta um caso ainda mais dramático.

Na véspera da votação, o Datafolha colocava Dilma Rousseff na liderança, com 23% dos votos válidos. Rodrigo Pacheco aparecia com 15% e Carlos Viana com 14%.

O resultado foi completamente diferente.

Pacheco terminou eleito com 20,54%, Carlos Viana com 20,30%, e Dilma ficou em quarto lugar, com 15,21%.

Aqui, portanto, a pesquisa não apenas errou percentuais: errou a própria ordem dos candidatos e quem ocuparia as duas vagas.

2010: Netinho liderava, mas ficou fora

Em São Paulo, na eleição para duas vagas ao Senado em 2010, outro episódio chama atenção.

Pesquisa Datafolha divulgada no fim de setembro mostrava Netinho de Paula na liderança, com 39%, seguido por Marta Suplicy, com 36%, e Aloysio Nunes, com 29%.

Nas urnas, Aloysio Nunes terminou na primeira colocação, seguido por Marta Suplicy. Netinho ficou de fora.

Mais uma vez, a pesquisa não conseguiu reproduzir a ordem final da disputa.

Afinal, qual é a proporção de acertos e erros?

É importante evitar uma estatística simplista do tipo “as pesquisas acertam X% das vezes”, porque não existe uma única métrica oficial para definir acerto.

O resultado muda conforme o critério utilizado:

Acertar o vencedor: o instituto pode identificar corretamente quem terminou em primeiro, mesmo errando o percentual.
Acertar a ordem dos candidatos: é um critério mais rigoroso.
Acertar dentro da margem de erro: considera o intervalo estatístico informado pelo instituto.
Acertar o percentual exato: é praticamente impossível esperar precisão absoluta de uma pesquisa amostral.

Nos três episódios analisados neste levantamento — 2022, 2018 e 2010 — há pelo menos três situações claras de divergência relevante.

Em 2022, no primeiro turno, os principais institutos acertaram Lula em primeiro e Bolsonaro em segundo, mas subestimaram significativamente a votação de Bolsonaro.

Em 2018, em Minas Gerais, a pesquisa de véspera não acertou sequer os dois eleitos quando comparada à liderança indicada.

Em 2010, em São Paulo, a liderança apontada para o Senado também não se confirmou nas urnas.

Isso significa que, considerando apenas esses três exemplos emblemáticos, 100% dos casos apresentam algum grau relevante de divergência entre a pesquisa destacada e o resultado final. Mas isso não significa que 100% das pesquisas brasileiras estejam erradas. A amostra é pequena e foi escolhida justamente por representar episódios de grande discrepância.

O problema de transformar pesquisa em previsão

A principal conclusão é que pesquisa eleitoral não deve ser tratada como previsão matemática do resultado.

O levantamento representa as respostas de uma amostra de eleitores em determinado período. Entre a entrevista e a urna, o eleitor pode mudar de opinião, aderir ao voto útil, abandonar um candidato, decidir seu voto ou simplesmente não revelar sua preferência.

Em 2022, por exemplo, uma análise posterior mostrou que os institutos conseguiram captar tendências importantes, mas tiveram dificuldade para acompanhar movimentos ocorridos nos últimos dias do primeiro turno.

Outro dado importante é que, em 2014, 9% dos eleitores disseram ter decidido o voto no próprio dia da eleição e 6% na véspera, segundo levantamento citado pela Folha.

Pesquisa serve para medir, não para garantir

Os episódios históricos não autorizam concluir que pesquisas eleitorais sejam inúteis. Pelo contrário: levantamentos bem conduzidos ajudam a identificar tendências, rejeições, crescimento ou queda de candidatos e movimentos do eleitorado.

O problema está em transformar uma fotografia em uma certeza.

A pesquisa mostra o cenário no momento da entrevista. A urna mostra a decisão final do eleitor.

E a história das eleições brasileiras deixa uma mensagem clara: pesquisas podem acertar, podem errar dentro da margem de erro e também podem errar de forma significativa. Por isso, liderança em pesquisa não é garantia de vitória — e percentual de intenção de voto não é resultado eleitoral.