Mauro promete responder mentiras com obras, mas ainda não esclarece pontos centrais do caso Oi
Candidato ao Senado destaca resultados de sua gestão, porém ainda precisa explicar as conexões apontadas pela Polícia Federal entre o acordo de R$ 308 milhões e fundos ligados à sua família
O candidato ao Senado Mauro Mendes afirmou que pretende responder aos ataques dos adversários apresentando as obras e os resultados dos sete anos e três meses em que esteve à frente do Governo de Mato Grosso.
“Para cada mentira que eles contarem, eu vou mostrar dez escolas que nós construímos. Para cada mentira que eles contarem, eu vou mostrar os hospitais, seis grandes hospitais que nós estamos construindo, três já estão prontos”, declarou durante entrevista ao programa A Notícia de Frente.
Mauro também citou os cerca de 7 mil quilômetros de asfalto executados durante sua administração, os convênios firmados com os municípios e a conclusão do Hospital Central, obra que permaneceu paralisada durante mais de três décadas.
Entretanto, ao classificar como “narrativa política” as acusações relacionadas ao acordo entre o Governo de Mato Grosso e a Oi, o candidato ainda não apresentou respostas detalhadas para alguns dos principais questionamentos levantados pela Operação Heritage.
A investigação foi deflagrada pela Polícia Federal, com autorização do Supremo Tribunal Federal, para apurar suspeitas de peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada. Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, além de bloqueios de bens e quebras de sigilos bancários e fiscais. As medidas investigativas não representam condenação dos envolvidos.
O que Mauro Mendes ainda precisa esclarecer
1. A ligação entre os fundos e seus familiares
A PF aponta que parte do dinheiro teria percorrido uma cadeia formada pelos fundos Royal Capital, Zurich e London. O London teria adquirido participações na Parecis Bioenergia que pertenciam ao 5M Capital, estrutura controlada pelo GS Heritage, cujos cotistas incluíam os filhos de Mauro Mendes.
O candidato nega participação nos fundos, mas ainda não explicou detalhadamente a relação econômica entre o patrimônio de sua família, o GS Heritage, o 5M Capital e a venda das participações da Parecis Bioenergia.
2. A coincidência entre o acordo e a criação dos fundos
Outro ponto que permanece pendente é a cronologia. Segundo informações extraídas da decisão do STF, o Royal Capital FIDC e o Lotte World FIDC foram constituídos pouco antes da formalização do acordo.
A defesa ainda precisa esclarecer quem decidiu que os pagamentos seriam destinados especificamente a esses fundos, quais critérios foram adotados e quando os responsáveis tiveram conhecimento de que o acordo seria celebrado.
3. O caminho completo dos R$ 308 milhões
Mauro tem concentrado sua defesa na legalidade e na vantagem financeira do acordo para o Estado. Isso, porém, não responde integralmente à suspeita investigada pela PF, que envolve a destinação posterior do dinheiro.
A questão central é esclarecer quanto dos R$ 308,1 milhões efetivamente permaneceu com a Oi, quanto foi destinado a honorários, quanto passou por fundos de investimento e quem foram os beneficiários finais de cada operação.
4. A pulverização dos recursos em aproximadamente 15 fundos
A investigação aponta que o dinheiro teria circulado por cerca de 15 fundos antes de chegar a determinadas empresas e patrimônios privados. Mauro ainda não apresentou uma explicação detalhada sobre a finalidade econômica dessa estrutura, formada por sucessivas transferências e aquisições de participações societárias.
5. O eventual conhecimento prévio sobre a operação financeira
Também permanece sem resposta pública conclusiva se Mauro, seus familiares ou pessoas próximas tiveram conhecimento antecipado do destino dos recursos ou das operações envolvendo a Parecis Bioenergia.
Esse ponto é relevante porque a PF também apura possível uso indevido de informação privilegiada. Até agora, o candidato nega irregularidades, mas ainda não detalhou quem negociou as operações e em quais datas elas foram autorizadas.
6. A alegação de que o TCE teria aprovado todo o negócio
Mauro afirma que o acordo passou pelos órgãos de controle. Contudo, reportagem publicada pelo portal Isso É Notícia informou que o Tribunal de Contas não teria julgado o mérito de duas representações sobre o caso. Uma manifestação anterior teria sido produzida dentro de procedimento específico, enquanto outra representação foi arquivada sem exame do mérito.
Assim, ainda é necessário esclarecer exatamente quais aspectos foram analisados pelo TCE, pelo Ministério Público de Contas e pelo Ministério Público Estadual — e se esses órgãos tiveram acesso ao caminho completo do dinheiro pelos fundos.
Obras não substituem respostas
As obras e os indicadores de uma gestão são elementos legítimos do debate eleitoral. Entretanto, eles não respondem automaticamente aos questionamentos de uma investigação financeira.
Mauro Mendes tem o direito à presunção de inocência, e a Operação Heritage ainda está em fase de apuração. Ao mesmo tempo, por ter comandado o Estado quando o acordo foi celebrado e por existirem referências a fundos vinculados aos seus familiares, o candidato precisa apresentar respostas objetivas, acompanhadas de documentos, sobre o caminho dos recursos.
A população poderá comparar escolas, hospitais, rodovias e demais resultados administrativos. Mas também tem o direito de saber quem recebeu os R$ 308 milhões, por quais fundos o dinheiro passou e se houve ou não benefício privado para famílias ligadas aos agentes públicos investigados.






