Das articulações em Brasília à derrota nas urnas: Fávaro e Neri ficam sem nova cadeira no Congresso
Ex-ministro de Lula não renova mandato no Senado; Neri Geller fica na suplência após trajetória marcada pela crise do leilão de arroz
A passagem pelo governo federal e a atuação junto ao agronegócio não garantiram um novo mandato a Carlos Fávaro (PSD) e Neri Geller (Podemos). Nas eleições de domingo (4), os dois tiveram seus planos interrompidos pelo resultado das urnas em Mato Grosso. Fávaro recebeu 411.020 votos e terminou a corrida ao Senado em quarto lugar. Neri somou 31.383 votos na disputa para deputado federal e ficou na suplência.
As derrotas atingem duas lideranças que participaram da aproximação de uma parcela do setor rural com Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em 2022, ambos aderiram ao projeto presidencial petista e ajudaram a construir uma frente de apoio em um estado de forte presença bolsonarista. Fávaro chegou ao comando do Ministério da Agricultura, ampliando sua projeção nacional.
Antes dessa aliança, entretanto, Fávaro buscava se apresentar ao eleitor como alinhado ao governo Jair Bolsonaro. Em registros daquele período, defendia a administração federal e sinalizava que sua atuação não traria surpresas ao então presidente. A adesão posterior a Lula passou a ser explorada por adversários como uma mudança de lado.
Essa proximidade declarada não significou que Bolsonaro tivesse escolhido Fávaro como candidato. Na eleição suplementar de 2020, o apoio do então presidente foi para Coronel Fernanda. Fávaro venceu aquela disputa e, dois anos depois, participou da articulação favorável ao retorno do PT ao Palácio do Planalto.
No caso de Neri, a tentativa de voltar à Câmara ocorreu após uma saída conturbada do governo Lula. Em junho de 2024, ele perdeu o cargo de secretário de Política Agrícola durante a crise do leilão de arroz importado, que acabou anulado pelo governo. A compra havia sido proposta em meio às preocupações com o abastecimento após as enchentes no Rio Grande do Sul.
A controvérsia envolveu suspeitas de conflito de interesses: um ex-assessor de Neri participou da intermediação de negócios no certame e era sócio do filho do então secretário em outro empreendimento. Neri negou irregularidades, afirmou que a empresa com participação do filho nunca havia operado e rejeitou ser responsabilizado pelos problemas do leilão.
O resultado de 2026 limita o espaço parlamentar que os dois buscavam ocupar a partir de 2027. Para o grupo do agro que participou da aproximação com Lula, trata-se de uma perda política relevante. Isso, porém, não equivale a uma derrota de todo o agronegócio, um setor representado por diferentes partidos e lideranças. Tampouco os números das urnas, isoladamente, permitem determinar o peso da mudança de alianças de Fávaro ou da polêmica envolvendo Neri na decisão dos eleitores.







