A onça não bebeu água: derrota de Janaina expõe erros e interrompe ciclo do clã Riva


Trocas de suplentes, perda de deputados federais no MDB e fracasso da sucessão familiar marcam o revés de um grupo que pretendia ampliar seu espaço em Mato Grosso.

A onça não bebeu água. A expressão resume o contraste entre a força projetada pela campanha de Janaina Riva (MDB) e o resultado das urnas. A deputada terminou a disputa pelo Senado em terceiro lugar, com aproximadamente 519 mil votos e 14,53% dos votos válidos. Mauro Mendes (União) e José Medeiros (PL) conquistaram as duas vagas. A candidatura que pretendia levar a principal liderança do MDB estadual a Brasília terminou sem mandato para a próxima legislatura.

O revés ultrapassou a candidatura de Janaina. Sua irmã, Jéssica Riva, também não conseguiu uma cadeira na Assembleia Legislativa. A combinação interrompe a presença contínua da família no Parlamento estadual, iniciada com a posse de José Riva em 1995 e mantida por Janaina a partir de 2015. O projeto de avançar ao Senado e preservar a representação familiar na Assembleia fracassou nas duas frentes.

Uma derrota desse tamanho exige examinar as decisões da própria campanha. E os problemas começaram antes da votação.

A composição da chapa ao Senado passou por sucessivas alterações. Inicialmente apresentada para a primeira suplência, a delegada aposentada Ana Cristina Feldner foi substituída por Aluizo Lima no último dia do prazo de registro, em agosto.

A saída produziu desgaste público: Ana Cristina afirmou ter sido retirada sem aviso e declarou ter se sentido “usada, enganada e desrespeitada”. Janaina contestou sua versão. Em setembro, houve nova reformulação: Aluizo Lima e Ibrahim Zaher deram lugar a Danilo Trento e Rafael Yamada Torres. A sequência expôs dificuldades para estabilizar uma composição que deveria transmitir confiança ao eleitor.

As novas escolhas acrescentaram controvérsia. Conforme reportagem do Congresso em Foco, Trento teve o indiciamento recomendado no relatório da CPI da Pandemia e seu nome apareceu nas investigações sobre descontos irregulares no INSS. Rafael Torres foi denunciado em ação relacionada a contratos de manutenção de rodovias em Mato Grosso. Esses registros não equivalem a condenações, mas tornaram politicamente mais difícil defender a composição da chapa.

À Folha de S.Paulo, Janaina declarou que a formação envolveu decisões e diálogo entre lideranças do MDB, e não uma escolha exclusivamente pessoal. A explicação, porém, não elimina a responsabilidade política de uma candidata pelos nomes apresentados ao eleitor como seus possíveis substitutos.

O diagnóstico crítico apareceu dentro do próprio partido. O deputado estadual eleito Léo Bortolin apontou a troca de suplentes e a declaração de Janaina de que gostaria de chegar ao Senado ao lado de Carlos Fávaro como fatores que prejudicaram a candidatura. Janaina negou ter pedido votos para Fávaro. Trata-se de uma avaliação de Bortolin, sem demonstração de quanto cada episódio efetivamente alterou a votação.

Na organização partidária, os sinais de fragilidade também eram anteriores à eleição. Durante a janela partidária, o MDB perdeu seus dois deputados federais: Juarez Costa migrou para o Republicanos e Emanuelzinho para o PSD. Em julho, reportagem reproduzida pelo Repórter Araguaia já descrevia o desmonte do projeto de chapa federal e a concentração dos esforços na disputa pela Assembleia.

O contraste é relevante: enquanto Janaina buscava ampliar sua projeção nacional, o partido que presidia perdia parlamentares e capacidade de organizar uma candidatura coletiva à Câmara. Não há comprovação de que ambos tenham sido deliberadamente escanteados. Há, entretanto, um resultado político que precisa entrar na avaliação de sua gestão: o MDB não conseguiu preservar aqueles quadros.

A derrota também atingiu Juara, referência histórica da família. No município, Janaina ficou em terceiro lugar, com 5.857 votos, atrás de Mauro Mendes, com 12.569, e Medeiros, com 10.534. Nem a ligação com o reduto familiar foi suficiente para colocá-la entre os dois mais votados.

O conjunto permite uma leitura: a força acumulada em eleições anteriores não bastou para sustentar o salto ao Senado. A campanha enfrentou instabilidade na chapa, controvérsias sobre seus integrantes, perda de quadros partidários e dificuldade para transformar influência familiar em novas cadeiras.

Após o resultado, Janaina agradeceu aos eleitores, parabenizou os vencedores e afirmou: “A onça segue de pé. E a luta por Mato Grosso também”.

Seguir na política é uma possibilidade concreta. Recuperar o espaço perdido exigirá mais que reafirmar coragem. Exigirá explicar escolhas, reconstruir alianças e reconhecer que o sobrenome Riva já não assegura a continuidade eleitoral da família.

A onça pode continuar de pé. Mas, nesta eleição, o rugido não virou cadeira no Senado.