Novo presidente do TCE-MT já foi preso após tentar destruir cheques de R$ 450 mil e agora aparece em investigação sobre repasses m

Waldir Teis assume comando da Corte após prisão de Sérgio Ricardo, mas carrega episódio da Operação Ararath e é citado em investigação que aponta R$ 1,5 milhão em pagamentos fora da folha convencional. Sucessão de escândalos coloca em xeque a credibilidad

CUIABÁ (MT) — A crise que atinge o Tribunal de Contas do Estado de Mato Grosso (TCE-MT) ganhou um novo capítulo marcado por uma contradição institucional: o conselheiro escolhido para conduzir a Corte após a prisão de seu presidente também possui um histórico de investigação policial e aparece entre os destinatários de pagamentos milionários identificados pela Polícia Federal.

Waldir Júlio Teis assumiu a presidência do TCE-MT na terça-feira (3), cinco dias após a prisão preventiva de Sérgio Ricardo, no âmbito da Operação Tomada de Contas. A mudança no comando ocorre em meio a uma das maiores crises de credibilidade já enfrentadas pelo órgão responsável por fiscalizar a aplicação dos recursos públicos estaduais e municipais.

O que poderia representar o início de uma recuperação institucional trouxe de volta episódios que marcaram negativamente a trajetória do novo presidente.

Em 2020, durante a 16ª fase da Operação Ararath, Teis foi flagrado por câmeras de segurança descendo 16 andares de um edifício em Cuiabá enquanto tentava se desfazer de cheques que somavam aproximadamente R$ 450 mil.

Agora, uma reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, com base em documentos da investigação da Polícia Federal, aponta que o conselheiro recebeu cerca de R$ 1,5 milhão por meio de pagamentos identificados na chamada folha paralela do Tribunal.

A sucessão de acontecimentos levanta uma questão inevitável: como reconstruir a confiança em uma instituição de fiscalização quando seu novo dirigente também precisa prestar esclarecimentos sobre fatos investigados?

O episódio dos cheques e a Operação Ararath

A trajetória de Waldir Teis ganhou projeção nacional em junho de 2020, quando a Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão durante mais uma etapa da Operação Ararath.

Na ocasião, imagens de câmeras de segurança registraram o conselheiro percorrendo as escadarias de um edifício comercial, em uma tentativa de se desfazer de documentos financeiros.

Segundo as informações divulgadas à época, os cheques tinham valor aproximado de R$ 450 mil. O episódio levou à prisão preventiva de Teis, posteriormente revogada.

A investigação estava relacionada a suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e irregularidades financeiras envolvendo agentes públicos e particulares de Mato Grosso.

As imagens ganharam repercussão nacional e se transformaram em um dos episódios mais emblemáticos da Operação Ararath.

É importante destacar que a prisão preventiva e a existência de investigações não equivalem a uma condenação criminal definitiva.

Ararath: o escândalo que expôs um sistema financeiro clandestino em Mato Grosso

Deflagrada em novembro de 2013, a Operação Ararath revelou suspeitas de um complexo esquema de movimentação clandestina de recursos financeiros, corrupção e lavagem de dinheiro em Mato Grosso.

As investigações conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal apontaram a existência de estruturas financeiras paralelas utilizadas para movimentar recursos milionários, envolvendo empresários, agentes políticos e integrantes da administração pública.

Segundo balanço divulgado pelo MPF, a força-tarefa apresentou 17 denúncias e conseguiu a indisponibilidade judicial de quase meio bilhão de reais durante sua atuação.

O esquema investigado envolvia operações de crédito clandestinas, movimentações destinadas à ocultação da origem de recursos e suspeitas de desvio de dinheiro público.

A operação atingiu personagens influentes da política estadual e deixou marcas profundas na história recente de Mato Grosso.

Mais de uma década depois de sua deflagração, a Ararath volta ao debate público diante da chegada de Waldir Teis à presidência do Tribunal de Contas.

Folha aponta R$ 1,5 milhão em repasses ao novo presidente

O histórico da Operação Ararath não é o único ponto que coloca o novo dirigente sob questionamento público.

Reportagem da Folha de S.Paulo, publicada em 3 de novembro de 2026, revelou que a Polícia Federal identificou pagamentos realizados aos sete conselheiros do TCE-MT por meio de mecanismos financeiros que não apareciam na folha remuneratória convencional divulgada no Portal da Transparência.

De acordo com os dados da investigação, aproximadamente R$ 48,5 milhões foram destinados aos sete conselheiros entre janeiro e outubro de 2025.

Desse montante, cerca de R$ 1,5 milhão foi identificado em pagamentos a Waldir Teis.

A investigação também apontou repasses de aproximadamente R$ 3,1 milhões a Gonçalo Domingos de Campos Neto e R$ 2,3 milhões a Antônio Joaquim.

Os três conselheiros não foram afastados na operação. A própria Polícia Federal reconheceu a necessidade de aprofundar as apurações sobre os valores recebidos e a eventual responsabilidade dos destinatários.

Portanto, a identificação dos pagamentos não significa, por si só, que todos os valores tenham origem ilícita ou que os conselheiros tenham cometido crimes.

Ainda assim, a diferença entre os pagamentos identificados e os valores divulgados oficialmente levanta questionamentos relevantes sobre transparência, controle financeiro e prestação de contas dentro da instituição.

Segunda grande crise: quem fiscaliza os fiscalizadores?

A Operação Tomada de Contas, deflagrada no dia 29 de outubro, atingiu diretamente a cúpula do órgão.

Sérgio Ricardo, então presidente do TCE-MT, foi preso preventivamente por determinação do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Outros integrantes da estrutura administrativa também foram alvo de medidas judiciais.

Segundo o Ministério Público Federal, a investigação começou após informações sobre possíveis cobranças de vantagens indevidas para a liberação de pagamentos a empresas contratadas pelo Tribunal.

A apuração identificou pagamentos realizados diretamente das contas da instituição, utilizando canais destinados a fornecedores e ordens bancárias avulsas.

Os investigadores também apontaram diferenças expressivas entre os valores efetivamente transferidos e aqueles disponibilizados nos registros públicos de remuneração.

O caso representa um novo abalo institucional depois dos acontecimentos relacionados à Operação Ararath.

Embora as duas operações investiguem fatos e períodos distintos, ambas colocam sob escrutínio a atuação de integrantes da estrutura de controle das contas públicas de Mato Grosso.

A repetição de crises dessa natureza provoca um desgaste que ultrapassa a responsabilidade individual dos investigados: atinge a própria confiança da sociedade nas instituições.

A sociedade tem motivos para cobrar respostas

O Tribunal de Contas exerce uma função essencial na democracia. Cabe à instituição fiscalizar contratos, examinar despesas, acompanhar a execução orçamentária e avaliar a legalidade da aplicação de recursos públicos.

Prefeituras, secretarias estaduais, autarquias e demais órgãos estão sujeitos à fiscalização da Corte.

Por isso, os questionamentos envolvendo sua própria administração possuem gravidade institucional particularmente elevada.

Se o órgão responsável por exigir transparência dos gestores públicos aparece envolvido em investigações sobre pagamentos não divulgados adequadamente, a sociedade tem o direito de exigir explicações completas e verificáveis.

O problema não se resume à substituição de um presidente por outro.

O desafio é demonstrar que os mecanismos de controle interno, transparência e responsabilização funcionam também dentro da instituição que tem a missão de fiscalizar os demais poderes.

Nesse cenário, a posse de Waldir Teis não encerra a crise. Ao contrário, o histórico do novo presidente e os dados recentes divulgados pela imprensa ampliam a necessidade de esclarecimentos.

Uma crise de confiança que exige reconstrução

A Operação Ararath marcou uma geração de investigações sobre corrupção e movimentações financeiras clandestinas em Mato Grosso.

A Operação Tomada de Contas, por sua vez, apresenta novas suspeitas sobre a administração de recursos públicos e pagamentos realizados dentro do próprio Tribunal.

A chegada de Waldir Teis à presidência ocorre justamente no encontro dessas duas histórias.

De um lado, permanece o episódio de 2020, quando foi preso preventivamente depois de tentar se desfazer de cheques durante uma ação policial.

De outro, surgem os dados da investigação atual, que apontam repasses de R$ 1,5 milhão ao conselheiro, cuja natureza e regularidade ainda precisam ser devidamente esclarecidas.

A reconstrução da credibilidade do TCE-MT dependerá de muito mais do que discursos institucionais. Exigirá transparência efetiva sobre os pagamentos, colaboração com as investigações e demonstração de independência na atuação fiscalizatória.

A presunção de inocência deve ser respeitada em relação a todos os investigados. Isso, porém, não elimina o dever público de prestar esclarecimentos.

Depois de tantos episódios envolvendo a Corte de Contas, a pergunta que permanece não é apenas quem ocupará a presidência do Tribunal, mas como a instituição conseguirá recuperar a confiança da sociedade mato-grossense.