Mercosul e União Europeia: entre o salto exportador e o risco industrial

Após mais de duas décadas de negociações marcadas por avanços tímidos e longos impasses, a assinatura do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia neste sábado representa uma inflexão histórica na geopolítica do comércio internacional do Hemisfério Sul. O pacto, no entanto, nasce sob um paradoxo claro: enquanto o agronegócio celebra a abertura de um mercado bilionário, setores industriais do bloco sul-americano enxergam um choque de competitividade sem precedentes.

Afinal, quem ganha, quem perde — e qual é o saldo real para o Mercosul?

O que o Mercosul ganha: o “cinturão verde” em expansão

O maior beneficiado imediato do acordo é o agronegócio. A União Europeia, um dos mercados mais exigentes e com maior poder aquisitivo do planeta, passa a ser acessada com menos barreiras e maior previsibilidade.

Produtos como café solúvel, suco de laranja e frutas tropicais terão tarifas zeradas de forma imediata. Carnes, açúcar e etanol entram com cotas ampliadas e tarifas preferenciais, ampliando a competitividade dos exportadores sul-americanos frente a concorrentes globais.

Outro ganho estrutural é a segurança jurídica. O acordo estabelece regras mais claras sobre medidas sanitárias, fitossanitárias e de defesa comercial, reduzindo o risco de barreiras técnicas usadas de forma discricionária.

Há também um avanço simbólico e econômico com o reconhecimento de indicações geográficas. Produtos como o Queijo Canastra, a cachaça brasileira ou os vinhos do Vale dos Vinhedos passam a ter proteção legal na Europa, agregando valor e fortalecendo a identidade das marcas regionais.

No campo dos investimentos, a expectativa é que a ratificação definitiva em 2026 destrave capital europeu em áreas estratégicas como infraestrutura, logística e energia limpa — gargalos históricos do Mercosul.

O que o Mercosul perde: o choque de competitividade

O preço da abertura agrícola é a liberalização gradual, porém profunda, do mercado industrial e de serviços. E é aqui que surgem as maiores resistências.

Setores como o automotivo, químico, farmacêutico e de bens de capital enfrentarão a redução de tarifas de importação que, em alguns casos, chegavam a 35%. Isso significa competir diretamente com empresas europeias mais capitalizadas, tecnologicamente avançadas e integradas a cadeias globais de valor.

Outro ponto sensível são as compras públicas. Pela primeira vez, empresas europeias poderão disputar licitações governamentais no Mercosul em igualdade de condições. Para o Estado, isso tende a reduzir custos e ampliar a concorrência; para a indústria local, significa a perda de um instrumento tradicional de fomento e proteção.

Há ainda o custo ambiental. As exigências do anexo de sustentabilidade — especialmente no combate ao desmatamento — exigirão investimentos robustos em rastreabilidade e conformidade. Para pequenos e médios produtores, essa adaptação pode significar aumento de custos e pressão financeira no curto prazo.

Análise: ganha-se mais ou perde-se mais?

No curto e médio prazo, o saldo é positivo em termos macroeconômicos. O aumento das exportações e a entrada de divisas fortalecem o balanço comercial, com impacto estimado de até US$ 87 bilhões no PIB brasileiro ao longo de 15 anos, segundo projeções amplamente citadas.

O verdadeiro teste, porém, será estrutural e de longo prazo.

O risco é claro: sem políticas industriais, inovação e qualificação tecnológica, o Mercosul pode consolidar o papel de exportador de commodities e importador de tecnologia — um “grande fazendão” inserido de forma passiva na economia global, aprofundando a desindustrialização.

Por outro lado, a oportunidade também é concreta. A concorrência tende a baratear máquinas, insumos e tecnologia, criando condições para que a própria indústria local se modernize, ganhe produtividade e se integre a cadeias globais mais sofisticadas.

Veredito

O acordo Mercosul–União Europeia representa um ganho majoritário, mas não automático. Trata-se menos de um prêmio e mais de um teste de eficiência. O bloco deixa para trás décadas de relativo isolamento e passa a jogar no tabuleiro global em condições mais exigentes.

As perdas recairão principalmente sobre setores que sobreviveram à sombra de tarifas e subsídios. Já o consumidor final tende a ganhar com mais variedade, preços menores e produtos de maior qualidade.

Em última instância, o acordo não define vencedores e perdedores por si só — ele expõe quem está preparado para competir e quem precisará, urgentemente, mudar.