Tensão em Davos: União Europeia decreta fim da velha ordem após novas ameaças tarifárias dos EUA
DAVOS, SUÍÇA – O Fórum Econômico Mundial de 2026 começou nesta terça-feira (20) sob um clima de forte ruptura geopolítica. Em um discurso contundente que reverberou entre líderes políticos e econômicos reunidos nos Alpes suíços, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que a “velha ordem global acabou”, marcando um dos momentos mais tensos da relação transatlântica nas últimas décadas.
A fala foi uma resposta direta à nova rodada de ameaças tarifárias anunciadas pelo governo do presidente Donald Trump, que voltou a adotar a pressão econômica como instrumento central de política externa. As medidas atingem desde o comércio industrial até temas sensíveis de soberania, como o recente interesse estratégico dos Estados Unidos sobre a Groenlândia.
Fim da dependência e autonomia estratégica
Em tom firme, von der Leyen defendeu que a União Europeia precisa abandonar qualquer dependência excessiva de alianças instáveis.
“A era da dependência passiva terminou. Estamos construindo uma autonomia estratégica que garanta a segurança e a prosperidade do nosso bloco, independentemente das flutuações políticas de Washington”, afirmou, sob aplausos de delegações europeias.
A declaração simboliza uma inflexão histórica na postura do bloco, que passa a assumir de forma mais explícita uma estratégia de independência econômica, energética e militar diante da imprevisibilidade americana.
Tentativa de contenção por parte dos EUA
Buscando reduzir a escalada diplomática, o governo americano enviou a Davos o Secretário do Tesouro, Scott Bessent. Em contraste com o discurso mais duro da Casa Branca, Bessent adotou um tom conciliador e pediu cautela aos parceiros europeus.
“Solicitamos paciência e pragmatismo. Nossas medidas não têm como objetivo destruir o comércio global, mas reequilibrá-lo”, afirmou durante um painel sobre o futuro das cadeias globais de suprimento. Ainda assim, a fala foi recebida com ceticismo por representantes do bloco europeu.
Mercados reagem com cautela
O impacto político teve reflexos imediatos nos mercados financeiros. O índice Euro Stoxx 50 caiu 1,8% nas primeiras horas da tarde, sinalizando o receio dos investidores diante da possibilidade de uma guerra comercial transatlântica em um momento ainda delicado da recuperação econômica global.
Analistas presentes em Davos alertam que uma eventual retaliação tarifária da União Europeia pode atingir em cheio setores estratégicos, como o automobilístico alemão e o segmento de luxo francês, com potencial de gerar um efeito dominó capaz de pressionar a inflação em escala global.
Oportunidades para o Sul Global
Enquanto Estados Unidos e União Europeia elevam o tom, países do chamado Sul Global, entre eles o Brasil, observam o cenário com atenção. O avanço do isolacionismo americano e a postura mais assertiva da Europa abrem espaço para novas alianças econômicas e diplomáticas.
Especialistas avaliam que acordos como o tratado Mercosul–União Europeia podem ganhar novo impulso, reposicionando economias emergentes como alternativas estratégicas ao eixo tradicional dominado por Washington e Bruxelas.
Um Davos de ruptura
O clima que domina Davos em 2026 é de transição e incerteza. Mais do que um fórum de debates, o encontro deste ano se consolida como um palco onde se redesenha o equilíbrio de poder global.
A cobertura completa das mesas-redondas, painéis e coletivas de imprensa pode ser acompanhada em tempo real pelo portal oficial do World Economic Forum.






