NR-1: não é sobre saúde mental. É sobre risco, e risco custa dinheiro.

Por: Dra. Adriellen Ramos Neuropsicanalista/ Especialista Saúde Mental e Transtornos Especialista em Saúde Mental no Trabalho (NR-1)

O dado que ninguém quer ver


O adoecimento mental relacionado ao trabalho já representa um custo anual estimado entre 282 e 468 bilhões de reais para a economia brasileira, o equivalente a 4,7% do PIB nacional. Isso inclui afastamentos, aposentadorias precoces, perda de produtividade e judicialização. Ainda assim, a maioria das empresas brasileiras trata a NR-1 como um problema de departamento jurídico, uma obrigação regulatória incômoda que precisa ser cumprida para evitar multas. Estão lendo a norma errado.
A NR-1 não é sobre "cuidar da saúde mental dos colaboradores". Não é sobre bem-estar corporativo, yoga na empresa ou rodas de conversa. A NR-1 é sobre gestão de risco psicossocial. E risco, no mundo empresarial, sempre custou dinheiro.

O que a NR-1 realmente exige

A Norma Regulamentadora nº 1, atualizada pela Portaria MTE nº 1.419 de agosto de 2024, determina que as organizações identifiquem, avaliem e controlem os riscos psicossociais relacionados ao trabalho a partir de 26 de maio de 2025, e em maio de 2026 as empresas passam a ser autuadas e multadas. Riscos. Não "questões subjetivas". Não "clima organizacional". Riscos mensuráveis que podem gerar dano à integridade física e mental do trabalhador.
O que a norma diz: as empresas devem mapear fatores como carga excessiva de trabalho, assédio, ausência de autonomia, conflitos interpessoais, insegurança no emprego e falta de reconhecimento, e tratá-los como riscos ocupacionais, no mesmo nível de periculosidade que ruído excessivo ou exposição química.
O que a norma não diz, mas implica: se você não faz isso, está operando uma organização com passivos não contabilizados. Você está gerindo às cegas.
Onde as empresas erram na interpretação: transformam a NR-1 em campanha de marketing interno. Contratam palestras motivacionais. Criam "comitês de felicidade". Fazem pesquisas de clima que ninguém lê. E acham que cumpriram a norma. Não cumpriram. Porque gestão de risco exige diagnóstico técnico, análise de causa raiz, intervenção estrutural e monitoramento contínuo. Não é teatro. É engenharia organizacional.

O que a ciência comprova


A Organização Mundial da Saúde reconheceu o burnout como fenômeno ocupacional em 2019, definindo-o como resultado de estresse crônico no trabalho não adequadamente gerido. Não é fragilidade individual. É falha de gestão.
Estudos da Organização Internacional do Trabalho demonstram que ambientes com altos níveis de risco psicossocial apresentam até 50% mais acidentes de trabalho, mesmo em atividades que aparentemente não têm relação com "saúde mental". A razão é neurocientífica: o estresse crônico reduz a capacidade de atenção, memória de trabalho e tomada de decisão. Um trabalhador em burnout opera com déficit cognitivo equivalente a privação de sono ou intoxicação leve. Globalmente, segundo a OMS, 12 bilhões de dias de trabalho são perdidos por ano devido a depressão e ansiedade, com custo de aproximadamente 1 trilhão de dólares à economia mundial.
Em 2024, o Brasil registrou 472.328 afastamentos por transtornos mentais, um aumento de 68% em relação a 2023 e crescimento de 134% desde 2022. Transtornos mentais já custam aproximadamente 3 bilhões de reais anuais ao INSS apenas em benefícios diretos. O tempo médio de afastamento é de 90 dias, com benefícios médios de 1.900 reais mensais por trabalhador afastado.
Presenteísmo, quando o trabalhador está fisicamente presente mas cognitivamente ausente, gera perdas de produtividade estimadas em até 30% da capacidade real de trabalho. Isso não aparece em nenhum indicador tradicional de RH. Mas sangra o resultado operacional silenciosamente.

A verdade nua e crua

Empresas fingem não saber que ambientes de trabalho tóxicos custam caro porque medir esse custo exige olhar para o que elas preferem não ver: modelos de gestão adoecedores, lideranças despreparadas, metas irrealistas, cultura de medo, comunicação violenta institucionalizada.
Trabalhadores não conseguem nomear o adoecimento psicossocial porque foram treinados a individualizar o sofrimento. "Eu não estou dando conta". "Eu preciso ser mais resiliente". "Eu sou fraco". Quando na verdade o que está acontecendo é: o ambiente está estruturalmente adoecedor e o corpo está reagindo de forma absolutamente coerente ao perigo.
O custo invisível está em: retrabalho constante, turnover silencioso dos melhores profissionais, queda na qualidade do produto, aumento de conflitos internos, perda de capacidade de inovação, erosão da imagem institucional. Esses custos não aparecem numa linha de balanço chamada "adoecimento mental". Mas estão lá. Diluídos. Sangrando.

Impacto sistêmico: do indivíduo à economia

Quando uma empresa opera com risco psicossocial não gerido, ela não adoece sozinha.
O trabalhador adoecido leva o adoecimento para casa. Suas relações familiares se deterioram. Seus filhos crescem em ambientes de estresse crônico. O cônjuge assume sobrecarga emocional e financeira. A rede de apoio se esgota.
Esse trabalhador, quando afastado, sobrecarrega o sistema público de saúde. O SUS recebe a demanda. O INSS paga o benefício. A Previdência sangra. O sistema judiciário é acionado. A conta, que deveria ser privada, vira pública.
E quando milhares de empresas fazem isso simultaneamente, você não tem mais um problema organizacional. Você tem um problema macroeconômico. Redução da força produtiva nacional. Aumento da pressão sobre políticas sociais. Queda no PIB. Deterioração do tecido social.
A NR-1 não é sobre bondade corporativa. É sobre sustentabilidade econômica.

Benefícios reais e riscos reais

O que funciona: diagnóstico técnico rigoroso dos riscos psicossociais presentes no ambiente de trabalho, conduzido por profissionais qualificados. Intervenções estruturais baseadas em evidência, redesenho de processos, revisão de metas, capacitação de lideranças, criação de canais efetivos de escuta e resposta. Monitoramento contínuo com indicadores claros. Responsabilização institucional pelos resultados.
O que não funciona: campanhas de conscientização descoladas de mudanças reais. Terceirização da responsabilidade para o trabalhador através de "programas de resiliência". Pesquisas de clima que viram gaveta. Ações pontuais sem continuidade. Marketing de bem-estar que mascara ambientes tóxicos.
O que pode piorar se mal aplicado: avaliações psicológicas individuais sem propósito claro, que expõem o trabalhador sem gerar mudança organizacional. Intervenções que psicologizam problemas estruturais. Identificação de "trabalhadores problemáticos" sem análise do contexto que os adoeceu. Uso de dados sensíveis sem protocolo ético rigoroso. Confusão entre gestão de risco e prática clínica.

A conta sempre chega

Empresas que ignoram a NR-1 ou a cumprem de forma burocrática estão fazendo uma aposta arriscada: a de que o custo do adoecimento mental será sempre invisível, sempre diluído, sempre adiável.
Não será.
A judicialização trabalhista está aumentando. A fiscalização está se sofisticando. Os trabalhadores estão nomeando o que antes naturalizavam. A sociedade está cobrando responsabilidade corporativa real, não performática.
Mas o argumento central não é jurídico. É econômico.
Uma empresa que não gerencia risco psicossocial opera com déficit estrutural de eficiência. Ela perde talentos. Perde produtividade. Perde capacidade de inovação. Perde reputação. Perde dinheiro.
A questão não é se você vai pagar a conta do adoecimento mental dos seus trabalhadores. A questão é: você vai pagar prevenindo ou remediando? Você vai pagar gerindo ou sendo gerido pela crise?
Porque a NR-1 não veio para complicar a vida das empresas. Veio para evitar que elas se destruam, e destruam pessoas, por incompetência em gestão de risco.
Risco sempre custou dinheiro. A diferença é que agora, finalmente, o risco psicossocial está sendo nomeado, medido e cobrado.
E quem ainda acha que isso é "só" sobre saúde mental não entendeu do que se trata a sustentabilidade de uma organização no século XXI.
 



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