Trump em Davos: ameaças, milagre econômico e a ofensiva pela Groenlândia
DAVOS, SUÍÇA – O retorno de Donald Trump ao Fórum Econômico Mundial, em 2026, foi muito além de um discurso político convencional. Em mais de uma hora de fala, o presidente dos Estados Unidos apresentou um verdadeiro ultimato à ordem internacional, alternando entre o triunfalismo econômico doméstico e ataques diretos a aliados históricos. Para analistas, o tom adotado consolida o que já é visto como uma ruptura definitiva com o sistema global baseado em regras multilaterais.
Ultimato sobre a Groenlândia
O momento mais sensível do discurso foi a reafirmação do interesse americano em adquirir a Groenlândia. Embora Trump tenha recuado de uma ameaça explícita de uso da força militar — afirmando que as Forças Armadas dos EUA seriam “imparáveis”, mas que ele “não faria isso” —, o presidente exigiu a abertura imediata de negociações com a Dinamarca.
Trump classificou o território como um “interesse central de segurança nacional” e acusou os dinamarqueses de “ingratidão” diante do apoio histórico americano. Horas após a fala, anunciou um “esboço de acordo” (framework) após conversas com o secretário-geral da OTAN, Mark Rutte. O entendimento levou à suspensão das tarifas de 10% que seriam impostas, em fevereiro, a oito países europeus.
Guerra comercial e ataques à França
O palco de Davos também foi usado para um ataque direto ao presidente francês, Emmanuel Macron. Em uma das passagens mais tensas do discurso, Trump ameaçou elevar para 200% as tarifas sobre vinhos e espumantes franceses, em retaliação à recusa de Paris em aderir ao seu proposto “Conselho de Paz” para Gaza e o Ártico.
Ele também relatou ter pressionado a França a aumentar os preços de medicamentos, para equipará-los aos valores praticados nos Estados Unidos, sob ameaça de sanções comerciais severas — um episódio descrito por analistas como coerção industrial explícita.
Críticas à OTAN e à Europa “irreconhecível”
O tom hostil se estendeu à arquitetura de segurança europeia. Trump afirmou que países do continente devem “trilhões de dólares” aos Estados Unidos por décadas de proteção militar “gratuita”. Reforçando um discurso recorrente, declarou ainda que partes da Europa se tornaram “irreconhecíveis” devido à imigração descontrolada, sugerindo que o continente estaria seguindo um caminho de decadência cultural e estratégica.
O “milagre americano” em contraste
Enquanto líderes europeus ouviam ameaças, Trump pintava um cenário de prosperidade absoluta nos Estados Unidos. Celebrou uma estimativa de crescimento econômico de 5,4% no quarto trimestre de 2025 — o dobro das projeções do Fundo Monetário Internacional — e afirmou que a inflação subjacente, em 1,5%, comprovaria o sucesso de suas políticas de corte de gastos federais e reindustrialização.
O presidente também anunciou a energia nuclear como o novo pilar da economia americana, prometendo gasolina abaixo de US$ 2 por galão como reflexo de uma matriz energética “forte e soberana”.
Reações: um mundo dividido
As reações em Davos foram de choque e resistência. Emmanuel Macron respondeu afirmando que a Europa “não aceitará a lei do mais forte” nem será intimidada por “valentões”. Já o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, declarou que o Reino Unido “não cederá” em princípios relacionados à Groenlândia sob pressão tarifária.
Apesar do alívio momentâneo nos mercados após a suspensão das tarifas anunciada depois do encontro com a OTAN, o Fórum Econômico Mundial de 2026 encerra-se sob a percepção de que a cooperação internacional cedeu espaço a uma diplomacia baseada em transações agressivas e imposições unilaterais.






