ONU aos 80 anos: entre o brilho do selo de Kobra e a sombra da irrelevância em Davos
NOVA YORK / DAVOS – Nesta sexta-feira, 23 de janeiro de 2026, a Organização das Nações Unidas celebra um marco simbólico: os 80 anos da primeira reunião do Conselho Econômico e Social (ECOSOC). A data foi marcada por uma cerimônia na sede da ONU, em Nova York, com o lançamento de um selo comemorativo criado pelo artista brasileiro Eduardo Kobra.
O clima de celebração, no entanto, contrasta fortemente com o pragmatismo frio que emana das montanhas suíças de Davos, onde líderes políticos e econômicos discutem o futuro do mundo à margem — e, em alguns casos, à revelia — do sistema multilateral construído após a Segunda Guerra Mundial.
A arte como último refúgio do multilateralismo
Inspirado no mural “O Futuro é Agora”, o selo assinado por Kobra carrega uma mensagem de esperança, sustentabilidade e responsabilidade intergeracional. “A arte serve para lembrar que o planeta é uma herança que deixamos para as crianças”, afirmou o artista durante a cerimônia.
O secretário-geral da ONU, António Guterres, aproveitou o momento para reforçar o papel do ECOSOC no combate às desigualdades globais e na implementação da Agenda 2030. Ainda assim, entre diplomatas e analistas, a comemoração teve gosto agridoce. Enquanto a ONU promove símbolos e debates éticos, decisões estratégicas sobre conflitos, reconstruções e grandes fluxos de capital parecem migrar para fóruns mais ágeis — e menos transparentes.
Davos e o “Conselho de Paz”: um desafio direto
O anúncio feito por Donald Trump no Fórum Econômico Mundial, sobre a criação de um chamado Conselho de Paz (Board of Peace), foi recebido como um golpe direto na lógica das Nações Unidas. A proposta prevê um órgão restrito, com ingresso estimado em US$ 1 bilhão e poder de veto concentrado em poucos membros — uma ruptura explícita com o princípio da igualdade soberana entre os Estados.
“A ONU virou um museu de boas intenções”, disparou um assessor da Casa Branca em Davos. “Enquanto o Conselho de Segurança segue paralisado por vetos ideológicos, o novo conselho foca em reconstrução, investimento e retorno financeiro”, afirmou, citando planos imobiliários bilionários para a Faixa de Gaza como exemplo da nova abordagem.
Uma crise que vai além da política
A fragilidade da ONU em 2026 não se resume ao embate ideológico. Ela é também estrutural. Com dificuldades crescentes de financiamento e resultados limitados na mediação de conflitos como a guerra na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio, a organização enfrenta o que historiadores descrevem como um “momento Liga das Nações” — quando uma instituição internacional perde relevância prática para as grandes potências.
A resistência inicial de países europeus em aderir ao projeto de Trump oferece algum fôlego ao multilateralismo tradicional. Ainda assim, a hesitação de nações como o Brasil, que afirma “avaliar” o convite para integrar o novo conselho, indica que o eixo real de influência global pode estar se deslocando.
Selos ou soluções?
Ao completar 80 anos, a ONU e o ECOSOC se veem diante de uma encruzilhada histórica. De um lado, a diplomacia clássica, ancorada em valores universais, direitos humanos e cooperação multilateral — simbolizada pelas cores vibrantes de Kobra. Do outro, a chamada “diplomacia transacional”, que promete resultados rápidos por meio de investimentos diretos, tratando a paz como ativo e a soberania como variável negociável.
O risco para 2026 é claro: que, ao fim das celebrações, a ONU permaneça como referência moral, cultural e simbólica, enquanto as decisões que moldam fronteiras, economias e conflitos passem a ser tomadas em conselhos privados, onde o voto tem preço e a paz, valor de mercado.






