A Ilusão da Proteção: por que o excesso de direitos empurra brasileiros para o PJ

Análise — Enquanto a CLT promete segurança, o custo invisível dos encargos trava salários e acelera a maior migração para o trabalho por contrato da história recente.

Nos últimos anos, o mercado de trabalho brasileiro passa por uma transformação silenciosa, porém estrutural. O antigo ideal da carteira assinada vem sendo substituído, de forma crescente, pela abertura de um CNPJ. Para economistas e críticos do atual modelo trabalhista, essa mudança não reflete apenas uma nova escolha profissional, mas uma reação direta a um sistema que, ao tentar proteger o trabalhador, acaba limitando sua renda, sua autonomia e seu potencial de crescimento.

O custo oculto da “proteção”

Um ponto central do debate costuma ficar fora do discurso público: os direitos trabalhistas não surgem do nada. Eles são pagos com o mesmo recurso que poderia ir diretamente para o salário.

No Brasil, para que um trabalhador receba cerca de R$ 5 mil líquidos, o custo total para a empresa pode se aproximar do dobro desse valor, considerando encargos como INSS patronal, FGTS, férias, 13º salário, além de tributos e contribuições obrigatórias, como o Sistema S. Esse conjunto de despesas compõe o chamado Custo Brasil.

Na prática, parte relevante da renda do trabalhador é desviada para uma espécie de poupança compulsória, administrada pelo Estado. O resultado é um salário mensal menor hoje em troca de uma promessa de segurança futura — promessa que, muitas vezes, perde valor com a inflação ou com gestões públicas ineficientes.

CLT x PJ: a matemática da autonomia

A migração para o modelo de Pessoa Jurídica (PJ) cresce justamente porque elimina essa intermediação estatal. No regime PJ, o valor que antes era absorvido por impostos e burocracia passa a ser negociado diretamente entre empresa e profissional.

Na CLT, o Estado define quando e como o trabalhador acessa seus benefícios, partindo do princípio de que ele não é capaz de administrar integralmente sua própria renda.

No PJ, o profissional recebe um valor bruto maior e assume a responsabilidade por previdência, saúde, seguro e reserva financeira.

Para a nova geração — especialmente em áreas como tecnologia, comunicação e serviços especializados — a possibilidade de negociar o valor real da própria produtividade pesa mais do que garantias previstas em uma legislação criada na década de 1940.

O círculo vicioso da estagnação

Críticos do modelo atual sustentam que o excesso de rigidez trabalhista contribui para um ciclo de empobrecimento estrutural, apoiado em três fatores principais:

Barreira à contratação — Pequenos e médios empresários evitam contratar. Um único processo trabalhista pode comprometer o caixa de uma empresa. O efeito colateral é claro: menos vagas e salários comprimidos para compensar o risco jurídico.

Expansão da informalidade — Quando a formalização se torna cara e complexa, o mercado cria alternativas fora da lei. Milhões de brasileiros permanecem sem qualquer direito justamente porque a CLT se tornou inviável para boa parte da economia real.

Ilusão monetária — O trabalhador enxerga o 13º salário e o FGTS como ganhos extras, mas ignora que seu salário mensal foi reduzido para que esses benefícios existam. Há direitos no papel, mas pouco poder de compra no dia a dia.

O contraste internacional

Nos Estados Unidos, o modelo prioriza a liberdade contratual. Sem encargos trabalhistas pesados, empresas conseguem pagar salários nominais mais altos. O mercado é mais flexível: demissões são mais fáceis, mas a recolocação também é mais rápida.

A dinâmica favorece a circulação de capital, a produtividade e a geração de riqueza, em vez da dependência de garantias legais que muitas vezes não cabem no fluxo de caixa das empresas.

Modernizar ou insistir?

Em 2026, a manutenção de uma estrutura trabalhista pesada parece servir mais à engrenagem burocrática do Estado do que ao trabalhador na ponta. A experiência prática mostra que mais direitos formais nem sempre significam mais renda real.

A ascensão do modelo PJ funciona como um sinal claro: o brasileiro está optando por menos tutela estatal e mais controle sobre o próprio trabalho. Para muitos, prosperar hoje passa menos pela promessa de proteção futura e mais pela liberdade de colher, agora, o valor integral da própria produtividade.