O Peso do Cárcere: por que um preso custa até cinco vezes mais que um aluno no Brasil?

Em 2026, o debate sobre a eficiência do gasto público ganha novos contornos ao colocar lado a lado dois sistemas essenciais — e profundamente desiguais — do Estado brasileiro: o educacional e o prisional. Enquanto o país ainda luta para garantir ensino básico de qualidade para milhões de crianças, o custo de manter a população carcerária atinge patamares que escancaram um dilema orçamentário difícil de ignorar.

Os números revelam uma realidade incômoda: hoje, o Estado gasta muito mais para punir do que para educar.

O abismo dos números

Levantamentos recentes indicam que a manutenção de um detento no sistema prisional estadual custa, em média, R$ 30,5 mil por ano, podendo ultrapassar R$ 60 mil em unidades mais complexas. Já no ensino fundamental, o investimento mínimo por aluno, via Fundeb, gira em torno de R$ 5.962 anuais.

Na prática, isso significa que o Brasil gasta até cinco vezes mais para manter um cidadão atrás das grades do que para formar uma criança na escola. Em presídios federais de segurança máxima, o custo anual de um único preso seria suficiente para financiar a educação de uma sala inteira, com cerca de 40 alunos.

“Preso se pagar”: da ideia ao debate político

Diante dessa disparidade, ganha força no Congresso Nacional e nas assembleias legislativas a discussão sobre a possibilidade de o próprio sistema prisional ajudar a custear sua manutenção. A proposta — conhecida popularmente como “preso pagante” — não é nova, mas ressurge com mais intensidade em meio a modelos de gestão público-privada e parcerias com o setor produtivo.

Entre os principais argumentos dos defensores da ideia estão:

Ressocialização pelo trabalho: ao exercer uma atividade produtiva, o detento aprende um ofício, ocupa o tempo e reduz as chances de reincidência criminal.

Alívio ao erário público: parte da remuneração — já prevista na Lei de Execução Penal (LEP) — poderia ser destinada obrigatoriamente ao ressarcimento de despesas como alimentação e manutenção.

Justiça social: para os defensores, não é razoável que o cidadão que cumpre a lei arque integralmente com os custos de quem a violou.

Os entraves jurídicos e estruturais

Apesar do apelo popular, a implementação enfrenta obstáculos significativos. A própria LEP já prevê o trabalho remunerado do preso e a possibilidade de indenização ao Estado. O problema está na execução.

Faltam oficinas, infraestrutura adequada e, sobretudo, empresas dispostas a operar dentro das unidades prisionais. Além disso, críticos apontam que grande parte da população carcerária vem de contextos de extrema pobreza, o que torna inviável qualquer cobrança sem a criação prévia de uma oferta ampla e contínua de trabalho.

Para onde deve ir o dinheiro público?

Mais do que uma discussão sobre “punir pelo bolso”, o debate em 2026 expõe uma questão estrutural: a inversão das prioridades do Estado. Especialistas em segurança pública e educação defendem que, enquanto o custo do crime continuar superando o investimento na prevenção — especialmente por meio da escola — o país seguirá em um ciclo de altos gastos e baixos resultados.

“A conta não fecha quando o Estado gasta mais para punir o erro do que para evitar que ele aconteça”, resumem educadores.

Nesse cenário, a busca por um sistema prisional mais autossustentável — ou ao menos menos oneroso — surge como alternativa para liberar recursos e dar fôlego à educação básica. Sem isso, o Brasil corre o risco de continuar investindo mais em grades do que em salas de aula, perpetuando um desequilíbrio que cobra seu preço geração após geração.