Operação Gorjeta revela padrão suspeito em emendas para corridas de rua em Cuiabá.
Investigação aponta concentração de R$ 6,5 milhões em recursos públicos, repetição de valores e indícios de devolução de verbas a parlamentares.
A Operação Gorjeta identificou um padrão recorrente e atípico na destinação de emendas parlamentares em Cuiabá: R$ 6.468.827,81 foram direcionados por 11 vereadores a institutos e associações responsáveis pela realização de corridas de rua.
Os dados levantados pelos investigadores levantam suspeitas sobre direcionamento de recursos, repetição de valores e possível retorno financeiro ilícito aos parlamentares.
Entre os investigados está o vereador Chico 2000 (PL), já afastado do cargo por determinação judicial. Segundo a apuração, as emendas foram concentradas em um número restrito de entidades, muitas delas recorrentes, com alterações posteriores nos objetos e valores inicialmente indicados.
Repetição de valores e concentração de beneficiários
Um dos pontos considerados mais sensíveis pela investigação envolve a Associação Brasil de Todos, que recebeu emendas idênticas no valor de R$ 1.456.276,20 de dois vereadores diferentes. O primeiro repasse foi indicado por Jeferson Siqueira. Quinze dias depois, o vereador Rogério Varanda destinou exatamente o mesmo valor à mesma entidade, fato classificado como atípico pelos investigadores e que reforça a suspeita de alinhamento prévio entre os envolvidos.
Além disso, parte significativa dos recursos foi canalizada para entidades como o Instituto Brasil Central (IBRACE), o Seven Instituto, o Instituto IDEAES e a própria Associação Brasil de Todos, indicando concentração de verbas públicas em poucos beneficiários.
Emendas alteradas após a indicação inicial
Outro elemento que chamou a atenção da força-tarefa foi o número elevado de emendas posteriormente modificadas. Pelo menos sete parlamentares alteraram valores, objetos ou beneficiários após a indicação inicial, o que, segundo os investigadores, pode ter sido utilizado para ajustar o direcionamento das verbas conforme interesses específicos.
Entre os casos estão emendas de Jeferson Siqueira, Kássio Coelho, Nilo Pinheiro, Marcrean Santos, Marcus Brito e Rogério Varanda, todas com alterações registradas após a formalização inicial.
Chico 2000 e o foco da investigação
O vereador Chico 2000 destinou R$ 1 milhão ao IBRACE para a realização de duas corridas de rua.
De acordo com os autos, há indícios de que parte dos recursos públicos repassados por meio das emendas teria retornado ao parlamentar, mecanismo que é um dos principais focos da Operação Gorjeta.
Com base nesses indícios, o Ministério Público chegou a solicitar a prisão do vereador. No entanto, o Judiciário optou pela aplicação de medidas cautelares, incluindo afastamento do mandato, proibição de contato com outros investigados, restrição de acesso à Câmara Municipal e à Secretaria de Esportes, além da retenção do passaporte.
Prejuízo ao erário e medidas judiciais.
A investigação aponta que o esquema teria causado prejuízo superior a R$ 600 mil aos cofres públicos. Para evitar a continuidade das supostas irregularidades, a Justiça determinou o bloqueio de R$ 676.042,32, além do sequestro de bens, entre eles sete veículos, uma motocicleta, uma embarcação, um reboque e quatro imóveis.
O Poder Executivo e o Legislativo de Cuiabá também estão impedidos de contratar ou nomear os investigados, medida que busca conter a influência do grupo sobre novos contratos e repasses.
Organização criminosa e retorno de recursos.
Segundo os elementos colhidos até o momento, os investigados teriam se organizado de forma estruturada para direcionar emendas parlamentares a institutos e empresas previamente escolhidos, com posterior “devolução” de parte dos valores aos vereadores responsáveis pelas indicações — prática que, se confirmada, caracteriza crimes de peculato, associação criminosa e lavagem de dinheiro.
A Operação Gorjeta segue em andamento e novas fases não estão descartadas.






