Especial | A Epidemia Silenciosa Por que o Uísque Mata Mais que a Cocaína
Washington/Genebra – Enquanto o debate global sobre segurança pública costuma se concentrar no combate ao tráfico de drogas ilícitas, dados recentes da saúde pública expõem uma realidade incômoda e muitas vezes ignorada: o álcool — especialmente destilados como o uísque — é responsável por um número de mortes muito superior ao da cocaína.
No centro dessa crise silenciosa está o maior fornecedor global da bebida: os Estados Unidos, que consolidaram sua posição como potência mundial na produção e exportação de uísque.
Números que Assustam
Relatórios recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que o consumo de álcool provoca cerca de 2,6 milhões de mortes por ano em todo o mundo. Em contraste, o uso de todas as drogas psicoativas ilegais somadas, incluindo a cocaína, é responsável por aproximadamente 600 mil mortes anuais.
Especialistas em saúde alertam que a ampla aceitação social do álcool ajuda a mascarar seus riscos. Além das overdoses agudas, o consumo crônico está associado a mais de 200 doenças e condições clínicas, como cirrose hepática, doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer.
EUA: o Celeiro do “Vício Legalizado”
Se a Colômbia costuma ser apontada como principal produtora de cocaína, os Estados Unidos ocupam o topo da cadeia global no mercado de uísque. Em 2024, as exportações americanas de bebidas destiladas bateram recorde, somando US$ 2,4 bilhões, sendo o uísque responsável por mais de 54% desse total — cerca de US$ 1,3 bilhão.
O mercado interno de uísque nos EUA foi avaliado em US$ 17,5 bilhões no mesmo ano, com projeções de crescimento contínuo, impulsionadas pela demanda na União Europeia, Austrália e no mercado asiático em expansão.
O Debate Diplomático
A comparação entre álcool e drogas ilícitas ganhou força no cenário político internacional após declarações do presidente colombiano Gustavo Petro, que questionou a lógica da “guerra às drogas”. Segundo ele, o uísque representa um risco maior à saúde humana do que a cocaína, ao destacar o impacto letal de uma bebida produzida no Norte Global em contraste com a folha de coca originária do Sul.
Embora ambas as substâncias apresentem riscos graves, especialistas concordam que a escala de consumo, a facilidade de acesso e a normalização cultural tornam o álcool uma ameaça de saúde pública muito mais abrangente.
A própria OMS é categórica ao afirmar que, quando se trata de álcool, “não existe nível seguro de consumo”.






