Mato Grosso: o silêncio que mata e a liderança do medo
Cuiabá (MT) – Pelo segundo ano consecutivo, Mato Grosso ocupa um posto que envergonha a sociedade e desafia as instituições: o de estado com a maior taxa de feminicídios do Brasil. Dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 confirmam a permanência dessa liderança negativa, evidenciando o avanço da violência doméstica e as falhas persistentes na rede de proteção às mulheres.
Um retrato da tragédia em números
O cenário em 2025 tornou-se ainda mais grave. Levantamento do Observatório Caliandra, do Ministério Público Estadual, aponta que 53 mulheres foram assassinadas em Mato Grosso apenas por serem mulheres — um aumento de aproximadamente 12,7% em relação aos 47 casos registrados em 2024.
As consequências ultrapassam as estatísticas e atingem toda a estrutura social. Somente no último ano, 87 crianças e adolescentes ficaram órfãos em decorrência desses crimes. Em 83% dos casos, as vítimas foram mortas dentro da própria casa — justamente o espaço que deveria representar proteção e acolhimento.
Raízes profundas: machismo, posse e controle
Especialistas alertam que a recorrência dos feminicídios em Mato Grosso não é fruto do acaso, mas resultado de uma verdadeira “arquitetura social da violência”. Entre os fatores mais recorrentes estão:
Posse e ciúme: grande parte dos crimes ocorre após a mulher tentar encerrar o relacionamento, enfrentando a não aceitação do agressor.
Cultura patriarcal: comportamentos machistas naturalizados reforçam relações desiguais e a ideia de submissão feminina.
Isolamento e medo: muitas vítimas não registram boletins de ocorrência, permitindo que o ciclo de agressões permaneça invisível até um desfecho fatal.
Os limites da punição e os desafios da prevenção
Embora a Polícia Civil tenha identificado 100% dos autores dos crimes no primeiro semestre de 2025, especialistas e parlamentares alertam que a resposta penal, por si só, não tem sido suficiente para evitar novas mortes.
O debate na Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT) reforça um consenso: endurecer penas não basta. É urgente fortalecer as Redes de Enfrentamento à Violência contra a Mulher, integrando saúde, assistência social e segurança pública, para garantir que a vítima consiga romper o ciclo de violência antes que ele se torne irreversível.
Enquanto o silêncio persistir e a proteção falhar, Mato Grosso seguirá liderando um ranking que custa vidas — e deixa marcas profundas em gerações inteiras.






