Neurodivergência Diagnosticada Tardiamente: O Luto Invisível pela Vida que Poderia Ter Sido
Dra. Adriellen Ramos Neuropsicanalista/ Especialista Saúde Mental e Transtornos Especialista em Saúde Mental no Trabalho (NR-1)
O que acontece quando uma pessoa passa 30, 40 ou 50 anos tentando se adaptar a um mundo que nunca foi pensado para o seu funcionamento neurológico? Quando finalmente recebe um diagnóstico de autismo, TDAH ou altas habilidades na vida adulta, não há apenas alívio. Há também uma pergunta que atravessa como uma lâmina: "E se eu tivesse sabido antes?"
O que a ciência já comprova
Estudos longitudinais sobre diagnóstico tardio de neurodivergências revelam um padrão consistente: quanto mais tardia a identificação, maior a prevalência de condições psiquiátricas secundárias. Pesquisas recentes em neuropsicologia indicam que adultos diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou TDAH após os 30 anos apresentam taxas significativamente elevadas de depressão, transtornos de ansiedade e trauma complexo.
A literatura científica demonstra que mulheres neurodivergentes, em particular, passam décadas desenvolvendo estratégias de camuflagem social, o chamado masking, que exigem um gasto cognitivo e emocional extraordinário. Esse processo de mascaramento crônico está associado ao esgotamento autístico (autistic burnout) e a quadros de despersonalização.
Ainda pouco discutido na literatura brasileira, mas clinicamente observado com frequência: o diagnóstico tardio não é apenas informativo. É um evento identitário que reorganiza toda a narrativa de vida do sujeito.
O que quase ninguém fala
Quando o diagnóstico chega aos 35, 42, 58 anos, não chega sozinho. Ele traz consigo um luto que não tem nome nos manuais, mas que ecoa em todo consultório que atende essa população: o luto pela vida que poderia ter sido vivida com compreensão, com suporte, com menos culpa.
Esse luto é atravessado por camadas complexas:
Raiva retroativa. Raiva dos pais que não perceberam. Dos professores que chamaram de "preguiçosa", "desatenta", "esquisita". Dos empregadores que a demitiram por não se encaixar. Raiva de si mesma por ter acreditado que era defeituosa.
Alívio ambivalente. Finalmente, as peças se encaixam. As dificuldades têm explicação. Mas esse alívio vem acompanhado de uma pergunta dolorosa: "Por que ninguém viu?"
Confusão identitária. Quem eu sou sem o esforço constante de ser quem achei que deveria ser? O que é minha personalidade e o que é apenas estratégia de sobrevivência?
Vergonha persistente. Mesmo após o diagnóstico, muitas pessoas relatam não conseguir "aceitar" suas necessidades. Foram treinadas a vida inteira a se envergonhar delas.
E há ainda o que chamo de "luto congelado": a impossibilidade de reparar décadas de relações rompidas, oportunidades perdidas, traumas acumulados. Não há como voltar e explicar para a criança de 8 anos por que ela não conseguia fazer amigos. Não há como pedir desculpas para a adolescente de 16 que se punia por não ser como as outras.
Impacto social e coletivo
Esse não é um problema individual. É uma falha estrutural que atravessa múltiplas esferas:
No trabalho: Neurodivergentes não diagnosticados apresentam taxas mais altas de demissão, subemprego e exaustão profissional. Muitas pessoas relatam ter passado por dezenas de empregos sem nunca entender por quê "não davam certo". A NR-1, que estabelece diretrizes para riscos psicossociais no trabalho, ainda não contempla adequadamente as necessidades de trabalhadores neurodivergentes, e o custo disso é pago tanto em produtividade quanto em saúde mental.
Na família: Relações familiares inteiras são construídas sobre mal-entendidos. Pais que acham que a filha é "dramática". Cônjuges que interpretam necessidades sensoriais como rejeição. Filhos que crescem achando que seus pais são "frios" quando, na verdade, são autistas não diagnosticados.
No sistema educacional: Crianças neurodivergentes que "passam despercebidas", especialmente meninas com TEA ou TDAH de apresentação desatenta, são frequentemente rotuladas como tímidas, imaturas ou pouco esforçadas. Essas crianças se tornam adultos que acreditaram a vida inteira que eram o problema.
No sistema de saúde: Profissionais de saúde mental ainda confundem apresentações atípicas de neurodivergência com transtornos de personalidade, bipolaridade ou até mesmo simulação. Mulheres, em particular, recebem em média 3 a 5 diagnósticos psiquiátricos antes de receberem o diagnóstico correto de autismo.
Na economia: O impacto econômico invisível é brutal. Pessoas neurodivergentes não diagnosticadas têm maior afastamento por doença, maior uso de medicação psicotrópica (muitas vezes inadequada), maior rotatividade no emprego e menor acesso a cargos compatíveis com suas capacidades reais.
Possibilidades, caminhos e provocações
O que está sendo estudado aponta para uma direção clara: quanto mais cedo a identificação, menor o impacto psicossocial negativo. Mas isso exige mudanças profundas.
Capacitação de profissionais. Médicos, psicólogos, pedagogos e gestores de RH precisam ser treinados para identificar apresentações atípicas de neurodivergência, especialmente em mulheres, pessoas racializadas e adultos.
Políticas públicas de rastreamento. Outros países já implementam protocolos de rastreamento de TEA e TDAH em múltiplas faixas etárias, não apenas na infância.
Reconhecimento nas relações de trabalho. Empresas que ignoram a neurodiversidade de suas equipes pagam o preço em turnover, afastamentos e processos trabalhistas. Adaptações razoáveis não são "privilégios", são direitos previstos na Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual o Brasil é signatário.
Suporte pós-diagnóstico. Receber o diagnóstico é apenas o começo. É necessário acompanhamento psicológico especializado para processar o luto, reestruturar a identidade e construir uma vida com menos mascaramento e mais autenticidade.
O custo de continuar ignorando é alto demais. Não apenas em sofrimento individual, mas em potencial humano desperdiçado, em talentos que nunca foram reconhecidos, em contribuições que nunca puderam ser oferecidas.
A pergunta que fica não é apenas clínica. É ética: quantas pessoas ainda estão vivendo sem saber por quê a vida parece tão mais difícil para elas? Quantos diagnósticos tardios poderiam ter sido evitados se olhássemos com mais atenção, com menos julgamento, com mais compreensão de que existem múltiplas formas de ser humano?
E, talvez a pergunta mais incômoda: quem se beneficia de manter essas pessoas invisíveis?






