Brasil atinge marco de 48 milhões no Bolsa Família contra 39 milhões na CLT
O Brasil chegou ao fim de 2025 diante de um ponto de inflexão delicado em sua estrutura econômica e social. Dados recentes mostram que o número de pessoas atendidas pelo Bolsa Família alcançou 48 milhões, superando com folga os cerca de 39 milhões de trabalhadores com carteira assinada no setor privado. A inversão acendeu um debate nacional sobre a sustentabilidade do modelo atual, a real situação do mercado de trabalho e a confiabilidade das estatísticas oficiais de emprego.
A expansão do programa de transferência de renda, cujo valor médio por família gira em torno de R$ 700, tem provocado mudanças perceptíveis na dinâmica da oferta de trabalho. Estudos de instituições como o FGV Ibre indicam que, a cada duas famílias beneficiárias, uma tende a se afastar da força de trabalho formal. O fenômeno é mais acentuado entre os jovens, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste, onde salários de entrada frequentemente competem, em termos de renda líquida, com o valor do benefício social.
Além disso, cresce a informalidade como estratégia de sobrevivência. Muitos beneficiários optam por trabalhos esporádicos ou “bicos” para complementar a renda sem ultrapassar o teto exigido pelo programa, evitando o desligamento do Bolsa Família. O resultado é um travamento da formalização e uma economia que se expande fora dos registros oficiais.
Esse movimento também alimenta críticas à metodologia utilizada pelo IBGE para medir o desemprego. Pela regra atual, só é considerado desempregado quem procurou trabalho ativamente nos últimos 30 dias. Pessoas que desistiram da busca — os chamados “desalentados” — ficam fora da conta. Com isso, a taxa oficial de desocupação recuou para níveis historicamente baixos, abaixo de 7%, enquanto a dependência de programas de transferência de renda atingiu recordes. Para críticos, trata-se de um “desemprego maquiado”, que não reflete plenamente a realidade social.
No centro da insatisfação está o trabalhador formal de baixa renda. Em muitos casos, quem recebe um salário mínimo vê sua renda líquida encolher após descontos obrigatórios com transporte, alimentação e previdência, chegando a valores inferiores ao benefício total recebido por famílias maiores inscritas no programa social. A sensação de desequilíbrio alimenta a percepção de injustiça fiscal e social.
Empresários, por sua vez, apontam o alto custo da formalização como um entrave central. A carga tributária e os encargos da CLT limitariam a capacidade de oferecer salários mais atrativos, transformando o auxílio governamental em um concorrente indireto na disputa por mão de obra, especialmente em setores intensivos em trabalho.
Para os críticos mais contundentes, o país vive uma inversão de valores: quem permanece na formalidade sustenta, por meio de impostos, uma rede de assistência que já supera o próprio mercado de trabalho formal em 13 estados, concentrados principalmente no Norte e Nordeste. O governo rebate afirmando que o Bolsa Família é essencial no combate à fome e à extrema pobreza e sustenta que milhões de famílias deixam o programa todos os anos por aumento de renda.
Ainda assim, a distância crescente entre o “Brasil que recebe” e o “Brasil que assina a carteira” expõe um desafio estrutural que vai além da assistência social. Trata-se de um impasse que envolve produtividade, tributação, educação, qualificação profissional e o próprio desenho do mercado de trabalho — e que seguirá no centro do debate econômico e político nos próximos anos.






