Quando a conta não fecha: o risco social da redução da jornada de trabalho no Brasil
A proposta de reduzir a jornada semanal de trabalho de 44 para 36 horas, mantendo o mesmo salário (PEC 8/2025 e PEC 221/2019), tem sido apresentada como uma forma de modernizar as relações laborais e melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores.
No papel, a ideia parece simples: trabalhar menos e continuar recebendo igual. Mas, na prática, a conta não fecha — especialmente na construção civil, um dos pilares do PIB e um dos setores que mais rapidamente gera empregos no país. E os efeitos não ficam restritos às empresas: atingem diretamente milhões de famílias que ainda lutam para conquistar a casa própria.
1. Aumento no custo da hora trabalhada
Atualmente, a jornada de 44 horas semanais corresponde a 220 horas por mês. Com uma jornada de 36 horas, seriam 180 horas mensais.
Manter o mesmo salário distribuído em menos horas significa, automaticamente, um aumento de 22,2% no custo da hora trabalhada — uma conta simples, mas com grandes consequências.
2. Choque de custo na construção civil
No setor da construção, a mão de obra responde por cerca de 40% do custo total dos empreendimentos (dados SINAPI/FGV).
Com efeito da redução da jornada:
O aumento de 22,2% no custo da hora trabalhada se reflete em um impacto direto de cerca de 8,9% no custo total da obra.
Considerando também efeitos indiretos (como logística, serviços de terceiros e BDI), o impacto final chega a aproximadamente 9,5% de aumento no custo da construção.
Ou seja: uma medida trabalhista acaba se traduzindo em um choque de custo imediato para todo o setor.
3. Impacto social: menos acesso à moradia
Esse aumento de custos tem efeitos sociais diretos no mercado imobiliário:
No Minha Casa, Minha Vida (imóvel de R$ 200 mil):
Preço sobe para cerca de R$ 219 mil.
Parcela mensal aumenta R$ 117,96.
Renda mínima exigida sobe cerca de 10%.
Com essa elevação, cerca de 2,3 milhões de famílias seriam excluídas do programa — o equivalente a 38% do déficit habitacional atual.
No médio padrão (imóvel de R$ 500 mil):
Valor sobe para cerca de R$ 547,5 mil.
Renda mínima exigida aumenta 10%.
Cerca de 1,5 milhão de famílias ficariam fora do mercado.
Menos demanda significa menos lançamentos de imóveis — e, consequentemente, menos empregos no setor.
4. Risco às obras em andamento
Projetos em andamento sob regime de Patrimônio de Afetação têm preços limitados, geralmente indexados ao INCC (inflação acumulada no passado).
Um aumento estrutural imediato de 9,5% nos custos pode comprometer a viabilidade financeira e a solvência de empreendimentos já vendidos, criando riscos para incorporadoras, financiadores e compradores.
5. O Brasil já parte de um custo elevado
Vale lembrar que o custo do trabalho no Brasil já é elevado antes mesmo de qualquer redução de jornada.
Segundo dados comparativos:
Encargos trabalhistas no Brasil chegam a cerca de 58% sobre o salário.
Na França, são cerca de 43%.
Na Alemanha, cerca de 23%.
Nos Estados Unidos, cerca de 9%.
Isso mostra que, mesmo antes da redução da jornada, o custo da mão de obra no Brasil já é estruturalmente alto.
Conclusão
O debate sobre a jornada de trabalho é legítimo e importante para o aperfeiçoamento das relações laborais. No entanto, mudanças dessa magnitude exigem análise técnica aprofundada, diálogo amplo com os setores produtivos e avaliação criteriosa dos seus impactos econômicos e sociais.
Sem isso, uma medida pensada para ampliar direitos e bem-estar pode, paradoxalmente, penalizar setores essenciais da economia e excluir milhões de brasileiros do sonho da casa própria.






