O Combo Social de 2026: Bolsa Família + Gás do Povo

A espinha dorsal dessa estratégia é a combinação entre o Bolsa Família reforçado e o novo formato do Vale-Gás, rebatizado informalmente de “Gás do Povo”.

Bolsa Família turbinado e foco na infância

Após os reajustes aplicados no início do ano, o valor médio do Bolsa Família foi mantido acima da inflação em 2026. O governo concentrou esforços especialmente nos adicionais voltados para crianças de 0 a 6 anos e gestantes, transformando o cuidado com a primeira infância no principal pilar do programa.

A estratégia é clara: reduzir a insegurança alimentar severa e, ao mesmo tempo, responder às críticas da oposição sobre o aumento do custo de vida. Ao preservar o poder de compra do benefício, o Planalto tenta criar um “colchão” de proteção contra a alta dos alimentos — um dos itens que mais pesam no orçamento das famílias mais pobres.

Do dinheiro na conta ao botijão na mão

No caso do vale-gás, a mudança foi mais estrutural do que apenas financeira. O benefício deixou de ser depositado como saldo em conta e passou a funcionar como vale-recarga direto na revendedora.

A alteração tem um componente logístico, mas também político. Ao sair do estabelecimento com o botijão literalmente pago pelo governo, o benefício se torna mais tangível. Diferentemente do depósito bancário, que muitas vezes acaba absorvido por dívidas ou outras despesas, o novo modelo reforça a percepção direta da ajuda estatal.

A meta anunciada é ambiciosa: alcançar até 60 milhões de pessoas até março, período que antecede o início formal das campanhas. O foco está especialmente nas regiões Norte e Nordeste, onde a base eleitoral de programas de transferência de renda é historicamente mais consolidada.

Populismo ou justiça social?

O debate político se intensificou. A oposição, com vozes como a do senador Flávio Bolsonaro, acusa o governo de usar o calendário social como estratégia eleitoreira. O argumento central é que a expansão de benefícios às vésperas do pleito teria como objetivo impulsionar a imagem do presidente.

Já o governo sustenta que as medidas são necessárias para mitigar os efeitos persistentes da crise econômica e garantir dignidade básica — como cozinhar com gás em vez de recorrer à lenha.

Entre os economistas, o alerta é técnico: o subsídio direto ao gás e a manutenção de benefícios elevados exigem equilíbrio fiscal. O custo bilionário dessas políticas em 2026 pressiona o orçamento e reacende discussões sobre responsabilidade fiscal e sustentabilidade das contas públicas.

O calendário do bem-estar

O primeiro semestre foi desenhado como uma sequência de entregas:

Janeiro e fevereiro: consolidação do novo vale-gás.

Março: inaugurações de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) nas capitais.

Abril: tentativa de avançar no reajuste da tabela do Imposto de Renda, incluindo a promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de ampliar a faixa de isenção para até R$ 5 mil — proposta ainda em negociação no Congresso.

No fim das contas, o sucesso dessa estratégia depende menos do marketing e mais da economia real. Se a inflação, especialmente a dos alimentos, permanecer sob controle, o “combo social” pode fortalecer a sensação de melhora no bem-estar. Caso contrário, o aumento dos preços pode neutralizar o efeito dos reajustes e transformar o trunfo político em novo foco de desgaste.