O Paradoxo da Fartura: Mato Grosso Consolida Pleno Emprego e Enfrenta Apagão de Talentos

Com taxa de desocupação em 2,2%, estado lidera ranking nacional, mas setor produtivo alerta para a escassez de profissionais qualificados em áreas estratégicas.

CUIABÁ – Mato Grosso encerrou o primeiro bimestre de 2026 reafirmando sua posição como uma das economias mais dinâmicas do país. Segundo dados da Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da PNAD Contínua, a taxa de desocupação no estado atingiu 2,2%, o menor nível da série histórica iniciada em 2012.

Enquanto a média nacional gira em torno de 5,6%, o cenário mato-grossense se aproxima do chamado pleno emprego — uma situação rara na economia brasileira. Esse desempenho reflete prosperidade e dinamismo, mas também impõe novos desafios ao setor produtivo.

O motor do crescimento

Somente em janeiro de 2026, Mato Grosso registrou um saldo positivo de 18,7 mil novos empregos formais. O avanço é puxado por três setores estratégicos da economia estadual:

Agronegócio:
Responsável por grande parte das contratações, o setor se prepara para uma safra recorde de 101 milhões de toneladas de grãos, ampliando a demanda por trabalhadores em toda a cadeia produtiva.

Indústria de Transformação:
Com previsão de crescimento de 6,7% em 2026, é atualmente o segmento industrial com maior ritmo de expansão no Brasil.

Construção Civil:
Impulsionada por investimentos em infraestrutura e logística, especialmente em cidades-polo como Sorriso e Sinop, o setor mantém forte ritmo de contratações.

O lado B: o “apagão” de mão de obra

Se, por um lado, os números refletem prosperidade econômica, por outro revelam um desafio crescente: a falta de profissionais disponíveis e qualificados.

Na construção civil, por exemplo, representantes do setor em Cuiabá relatam que o envelhecimento da força de trabalho e o baixo interesse de jovens pelas profissões técnicas têm obrigado empresas a buscar trabalhadores em outros estados.

“O desafio deixou de ser criar vagas e passou a ser reter talentos”, afirmam representantes do mercado.

No comércio e na logística, a escassez também é evidente. Operadores logísticos, técnicos e atendentes tornaram-se disputados, levando empresas a oferecer salários e benefícios cada vez mais competitivos, muitas vezes acima da inflação.

Impacto na renda e na inovação

A escassez de mão de obra tem um efeito direto na valorização salarial. Em Mato Grosso, a renda real segue em crescimento, já que empresas precisam elevar remunerações para evitar perder profissionais — especialmente para o agronegócio, tradicionalmente um dos setores mais bem pagos da economia regional.

Ao mesmo tempo, muitas indústrias têm adotado uma estratégia paralela: acelerar processos de automação.

Com menos trabalhadores disponíveis, cresce o investimento em tecnologia, inteligência artificial e agricultura de precisão, tanto no campo quanto nas fábricas. O objetivo é manter o ritmo de produção sem depender exclusivamente do aumento da força de trabalho.

O desafio do futuro

Especialistas alertam que a manutenção desse ciclo virtuoso depende de programas robustos de qualificação profissional.

Estima-se que o Brasil precisará qualificar 14 milhões de trabalhadores até 2027 para atender às demandas do mercado. Em Mato Grosso, onde o crescimento econômico ocorre em ritmo acelerado, essa necessidade se torna ainda mais urgente.

Sem um investimento consistente em formação técnica, capacitação e atração de talentos, o estado corre o risco de ver seu próprio sucesso econômico esbarrar em um limite inesperado: a falta de profissionais preparados para sustentar o crescimento.