O Brasil dos Dois Brasis: recorde de arrecadação contrasta com sufoco do varejo e do agro
Enquanto Brasília celebra indicadores macroeconômicos e superávit fiscal, gigantes como Raízen e GPA recorrem à Justiça para reorganizar dívidas bilionárias, expondo os efeitos de juros altos e mudanças no consumo.
SÃO PAULO – A narrativa oficial que parte de Brasília em 2026 é de resiliência econômica. O governo destaca sucessivos recordes de arrecadação federal, níveis historicamente baixos de desemprego e um Produto Interno Bruto que tem superado previsões mais pessimistas.
No entanto, quando se observa o cotidiano das grandes empresas, o cenário revela outra face da economia. Nesta semana, o mercado financeiro foi surpreendido por dois movimentos significativos: a Raízen, uma das maiores companhias do setor bioenergético do país, e o Grupo Pão de Açúcar protocolaram pedidos de recuperação extrajudicial para reorganizar suas dívidas. Somadas, as renegociações chegam perto de R$ 70 bilhões.
O episódio reforça a percepção de que o Brasil vive uma espécie de “dupla realidade” econômica: enquanto os indicadores macroeconômicos mostram força, parte relevante do setor corporativo enfrenta um ambiente financeiro desafiador.
A narrativa oficial: estabilidade e arrecadação em alta
O Ministério da Fazenda tem defendido que o desempenho da arrecadação reflete uma economia que voltou a crescer de forma consistente. O discurso oficial enfatiza o aumento do poder de compra das classes C e D e o impacto das políticas de transferência de renda, que ajudariam a sustentar o consumo interno.
Nesse contexto, os recordes fiscais são apresentados como evidência de que a atividade econômica continua girando, mesmo diante de um ambiente internacional incerto.
A realidade das empresas: juros altos e consumo em transformação
Para muitas empresas, porém, o cenário é bem menos confortável. Analistas apontam três fatores principais para explicar o descompasso entre os números do governo e a situação enfrentada por grandes corporações.
1. O custo do dinheiro
Mesmo com a inflação relativamente controlada, a permanência de juros elevados por um longo período pressionou o caixa de companhias altamente endividadas. No caso da Raízen, por exemplo, o financiamento de projetos como o etanol de segunda geração (E2G) tornou-se mais oneroso do que o planejado inicialmente.
2. O fim do fôlego pós-pandemia
Durante a pandemia, muitas empresas conseguiram alongar dívidas ou acessar crédito em condições favoráveis. Esse período de alívio terminou. Com bancos mais cautelosos e crédito mais seletivo, empresas passaram a enfrentar uma cobrança mais rígida, o que explica o número recorde de 5.680 recuperações judiciais registradas em 2025.
3. A transformação do consumo
O varejo também vive uma mudança estrutural. O GPA, tradicionalmente associado a supermercados premium, perdeu espaço para o crescimento acelerado do modelo de atacarejo. O consumidor brasileiro continua comprando, mas passou a priorizar preço e volume, migrando para formatos mais baratos.
O desafio do equilíbrio
O contraste entre os indicadores macroeconômicos positivos e as dificuldades corporativas revela uma economia em transição.
De um lado, o governo arrecada mais porque a atividade econômica existe e o consumo se mantém. De outro, empresas enfrentam margens comprimidas pelo aumento de custos operacionais, juros elevados e mudanças no comportamento do consumidor.
Para analistas do setor, não se trata necessariamente de uma contradição, mas de um descompasso de tempo.
“O governo colhe os efeitos imediatos do consumo e da arrecadação. Já as empresas estão pagando hoje a conta de investimentos feitos no passado com juros muito altos”, resume um analista do mercado varejista.
Enquanto os planos de reestruturação de Raízen e GPA avançam com apoio de seus principais acionistas, o mercado acompanha atentamente o desfecho. A questão que permanece é se o crescimento macroeconômico será suficiente para sustentar empresas que, no nível microeconômico, operam cada vez mais perto do limite financeiro.







