Fronteira Invertida: O Alerta Máximo de Assunção contra a Exportação do Crime Organizado do Rio e SP

ASSUNÇÃO — 11 de março de 2026 — Quem percorre hoje as ruas de cidades fronteiriças como Pedro Juan Caballero ou Salto del Guairá encontra um cenário que, há duas décadas, pareceria improvável. Durante anos, o imaginário brasileiro retratou o Paraguai como fonte de contrabando, armas e impunidade. Em 2026, porém, o temor mudou de lado: autoridades paraguaias afirmam que o risco agora vem do Brasil.

Neste mês de março, o governo do Paraguay mantém suas fronteiras em alerta elevado após uma ofensiva intensificada das forças de segurança no Rio de Janeiro e em São Paulo. Segundo fontes de segurança, operações contra as maiores facções brasileiras teriam pressionado lideranças criminosas a buscar refúgio na região de fronteira, usando o território paraguaio não apenas como rota logística, mas como possível abrigo.

O passado: Brasil na defensiva

Nos anos 1990 e no início dos anos 2000, a narrativa dominante em Brasília apontava o Paraguai como ponto de origem de diversas atividades ilícitas que abasteciam grandes centros urbanos brasileiros.

Entre os principais focos estavam:

Armas e drogas: a legislação mais flexível e rotas comerciais informais facilitavam a entrada de armamentos que acabavam nas mãos de organizações criminosas no Brasil.

Pirataria e contrabando: cidades comerciais paraguaias tornaram-se conhecidas por concentrar mercadorias falsificadas e eletrônicos contrabandeados que cruzavam diariamente a fronteira.

Durante anos, o fluxo era interpretado majoritariamente como um problema de entrada de produtos ilegais no Brasil.

O presente: a “exportação” do crime organizado

Nas últimas duas décadas, porém, a dinâmica mudou. O fortalecimento de facções brasileiras — especialmente o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) — levou essas organizações a expandirem suas operações para além do território brasileiro.

O ponto de inflexão ocorreu em 2016 com o assassinato do narcotraficante Jorge Rafaat Toumani em Pedro Juan Caballero, episódio que simbolizou a disputa violenta pelo controle das rotas de tráfico na fronteira.

Desde então, autoridades paraguaias passaram a tratar a presença dessas facções como uma ameaça interna.

Paraguai reage

Nos últimos anos, o governo paraguaio adotou medidas mais duras para conter a expansão dessas organizações.

Entre as principais iniciativas estão:

Classificação como organizações terroristas
Seguindo decisões semelhantes adotadas na Argentina, o Paraguai passou a enquadrar formalmente facções brasileiras como organizações terroristas, ampliando o poder de investigação e repressão das autoridades.

Expulsões de presos brasileiros
Dezenas de detentos brasileiros foram transferidos ou expulsos de penitenciárias paraguaias e entregues à Polícia Federal do Brasil na fronteira.

Reforço tecnológico nas fronteiras
O país também ampliou o uso de drones, monitoramento eletrônico e checagem de antecedentes em tempo real nos principais pontos de entrada.

Medo invertido

Para autoridades locais, o cenário representa uma inversão histórica. Durante décadas, o temor predominante era o de brasileiros que atravessavam a fronteira receosos de crimes ou golpes comerciais.

Hoje, segundo policiais paraguaios, o medo é que integrantes de facções tragam para o país a violência urbana típica das disputas no Brasil.

“Antigamente, o brasileiro tinha medo de vir ao Paraguai e ser assaltado ou comprar algo falso. Hoje, o paraguaio teme quem atravessa a ponte trazendo a guerra das facções”, afirmou um oficial da Polícia Nacional na região de fronteira.

Um dilema regional

Especialistas em segurança afirmam que o fenômeno evidencia um problema maior: o crime organizado na América do Sul tornou-se cada vez mais transnacional.

As facções brasileiras ampliaram suas redes logísticas, conectando rotas que passam por Paraguai, Bolívia e outros países da região, o que torna insuficientes as respostas isoladas de cada governo.

A ironia geopolítica é evidente: o território que durante décadas foi visto como refúgio para criminosos agora tenta impedir que a expansão do crime organizado brasileiro transforme o Paraguai em um novo campo de batalha das facções.