O Paradoxo do Campo: Mato Grosso bate recordes de exportação enquanto lidera recuperações judiciais

CUIABÁ – O agronegócio de Mato Grosso vive, em 2026, um cenário de contrastes. Enquanto o estado consolida sua posição como potência global na produção de grãos, produtores enfrentam uma crescente crise de liquidez que tem levado muitos a buscar proteção na Justiça.

Recordes no campo e nos portos

Mato Grosso iniciou março registrando o maior volume de exportação de soja para um mês de fevereiro em toda a série histórica. O resultado é impulsionado pelo ritmo acelerado da colheita da safra 2025/2026, que já ultrapassa 65% da área plantada.

Os números reforçam o peso do estado no mercado global. Se fosse um país, Mato Grosso figuraria hoje entre os três maiores produtores de soja do mundo.

Segundo projeções do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), a safra atual deve alcançar 51,41 milhões de toneladas, consolidando um novo recorde de produção.

O avanço não se limita à lavoura. A indústria local também cresce. O processamento de soja no estado deve superar 13 milhões de toneladas em 2026, refletindo a expansão das plantas de esmagamento e o aumento da agregação de valor à produção.

A crise silenciosa no caixa das fazendas

Por trás da força produtiva, no entanto, o cenário financeiro de muitos produtores é preocupante.

Dados recentes mostram que 2025 registrou o maior número de pedidos de recuperação judicial da história do agronegócio brasileiro: foram 1.990 solicitações, um aumento de 56,4% em relação ao ano anterior. Mato Grosso aparece como o estado com maior número de produtores e empresas do setor buscando proteção judicial.

Entre os principais fatores que pressionam o caixa no campo estão:

Problemas climáticos: episódios ligados ao El Niño e queimadas severas afetaram a produtividade em algumas regiões.

Margens cada vez menores: mesmo com produção elevada, a queda nos preços internacionais das commodities reduziu a rentabilidade.

Custos elevados: fertilizantes, defensivos e maquinário continuam pressionando o custo de produção.

Endividamento crescente: juros elevados e a restrição de crédito dificultam o refinanciamento de dívidas que, em alguns casos, superam R$ 100 milhões.

Volume não significa lucro

Para analistas do setor, o momento revela um paradoxo estrutural do agronegócio moderno: produção em escala recorde não garante necessariamente saúde financeira.

O aumento do volume exportado é resultado de tecnologia, expansão de área e ganho de produtividade. Porém, quando os preços internacionais recuam e o custo do dinheiro sobe, o impacto aparece diretamente na margem do produtor.

Assim, enquanto caminhões carregados seguem rumo aos portos e consolidam Mato Grosso como uma potência agrícola global, muitos produtores lutam nos bastidores para renegociar dívidas, alongar prazos e evitar a falência.

No coração do maior polo agrícola do país, a realidade de 2026 mostra que recordes de produção podem conviver com uma crise silenciosa no caixa das fazendas.