BRT, CARREIRAS E LACUNAS: O QUE FICOU PELO CAMINHO
Ao encerrar seu ciclo à frente do Governo de Mato Grosso, o governador constrói uma narrativa marcada por superação, eficiência administrativa e transformação estrutural do Estado. Seu texto de despedida é, antes de tudo, um documento político — legítimo, como todo balanço de gestão —, mas que exige, por responsabilidade pública, uma leitura crítica, ponderada e baseada na realidade vivida pela população.
É inegável que houve avanços importantes. O reequilíbrio fiscal do Estado, amplamente reconhecido por órgãos como o Tesouro Nacional, reposicionou Mato Grosso no cenário nacional. A conquista da nota máxima de capacidade de pagamento e o aumento da capacidade de investimento público são fatos concretos. O ajuste das contas, ainda que tenha exigido medidas impopulares, foi um passo necessário diante do cenário de colapso herdado em 2019.
Na infraestrutura, o volume de obras rodoviárias também merece destaque. A expansão da malha asfáltica, sobretudo em regiões historicamente negligenciadas, contribuiu para a integração econômica e logística do Estado. Da mesma forma, os investimentos na educação — com melhoria de indicadores e ampliação da estrutura física — e na assistência social, com programas de habitação e transferência de renda, representam ganhos objetivos para parcelas significativas da população.
Na segurança pública, o fortalecimento do aparato estatal, com aquisição de equipamentos e ampliação do efetivo, também produziu impactos mensuráveis, especialmente na redução de determinados índices criminais. Esses elementos compõem, de fato, um conjunto de entregas que não podem ser ignoradas ou desqualificadas.
No entanto, uma análise honesta não se constrói apenas com aquilo que foi feito — mas, sobretudo, com aquilo que foi prometido e não entregue.
O caso do BRT em Cuiabá e Várzea Grande é emblemático. Anunciado como solução moderna para a mobilidade urbana, o modal se transformou em símbolo de atraso, descontinuidade e insegurança institucional. A substituição do VLT pelo BRT foi justificada como medida de eficiência e economicidade, mas, anos depois, o que se observa é uma obra inconclusa, com impactos diretos na vida cotidiana da população e prejuízos à credibilidade da gestão pública. Trata-se de uma promessa não cumprida que extrapola a dimensão técnica e alcança o campo da confiança política.
Outro ponto sensível diz respeito à valorização dos profissionais da segurança pública, em especial da Polícia Civil. Apesar do discurso de fortalecimento institucional e dos investimentos em equipamentos, não houve a esperada reestruturação das carreiras, uma demanda histórica da categoria. A ausência de avanços concretos nesse campo revela uma contradição: investiu-se na estrutura, mas não se avançou de forma proporcional na valorização humana e profissional daqueles que sustentam o sistema.
Além disso, a narrativa de que “nenhuma invasão de terra prosperou” e de que houve tolerância zero ao crime precisa ser analisada com cautela. A segurança pública não pode ser reduzida a slogans. Persistem desafios estruturais, especialmente em áreas periféricas e vulneráveis, onde a presença do Estado ainda é irregular e, muitas vezes, insuficiente.
Na saúde, embora haja avanços na ampliação da rede hospitalar, parte das obras mencionadas ainda não foi integralmente concluída ou operacionalizada em sua plenitude. O acesso efetivo, a qualidade do atendimento e a distribuição regional dos serviços continuam sendo desafios relevantes.
O discurso de despedida também carrega um forte apelo político-eleitoral, ao projetar continuidade e ao defender a manutenção do “rumo certo”. No entanto, a ideia de que o mais difícil já foi feito pode ser perigosa. Governar não é apenas ajustar contas ou executar obras; é, sobretudo, construir políticas públicas sustentáveis, reduzir desigualdades e fortalecer instituições de forma duradoura.
Mato Grosso, de fato, avançou em diversos indicadores econômicos e fiscais. Mas ainda convive com profundas desigualdades sociais, assimetrias regionais e desafios estruturais que não se resolvem apenas com crescimento econômico.
O verdadeiro “rumo certo” não pode ser definido apenas por números ou rankings. Ele precisa ser medido pela capacidade do Estado de responder, de forma equitativa, às demandas de toda a sua população — inclusive daqueles que não aparecem nas estatísticas mais celebradas.
Encerrar um ciclo é sempre um momento de balanço. E todo balanço sério exige reconhecer acertos, mas também enfrentar omissões, contradições e promessas não cumpridas.
Mais do que gratidão, o momento exige lucidez.
Porque o futuro de Mato Grosso não depende apenas do que foi feito — mas, principalmente, daquilo que ainda precisa ser feito.






