Apagão no Oriente: impasse bilionário ameaça transmissão da Copa do Mundo na Índia e na China

NOVA DÉLHI E PEQUIM – A pouco mais de um mês da abertura da Copa do Mundo de 2026, a FIFA enfrenta uma crise inédita nos bastidores. Índia e China, os dois países mais populosos do planeta, ainda não fecharam acordo para a transmissão oficial do torneio, o que pode deixar cerca de 2,8 bilhões de pessoas sem acesso ao maior evento do futebol mundial.

O impasse gira em torno de cifras bilionárias e expõe uma disputa intensa entre a entidade máxima do futebol e os gigantes da comunicação asiática.

Na China, a estatal CCTV resiste aos valores pedidos pela FIFA. A entidade chegou a exigir cerca de US$ 300 milhões pelos direitos de transmissão, mas mesmo após reduzir a pedida para aproximadamente US$ 150 milhões, o valor ainda é considerado alto diante dos cortes orçamentários enfrentados pela emissora.

Na Índia, o cenário é ainda mais delicado. O conglomerado formado pela fusão entre Reliance e Disney apresentou uma proposta estimada em apenas US$ 20 milhões — muito distante dos cerca de US$ 100 milhões esperados pela FIFA para o mercado indiano.

Especialistas apontam que o problema vai além da negociação financeira. O fuso horário é um dos principais obstáculos. Como a Copa será disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, os jogos acontecerão na Ásia durante a madrugada ou nas primeiras horas da manhã, horários considerados pouco atrativos para anunciantes e patrocinadores.

Outro fator pesa diretamente no interesse do público: nem China nem Índia conseguiram se classificar para o Mundial. Sem seleções nacionais em campo, o engajamento do torcedor casual diminui consideravelmente, reduzindo o potencial de audiência e retorno comercial.

A preocupação da FIFA é enorme. Na Copa do Catar, em 2022, a China representou quase metade do consumo digital do torneio. Perder os dois mercados asiáticos significaria um duro golpe para os números globais de audiência e para os contratos de patrocínio internacional.

“Estamos falando de um apagão em praticamente um terço da humanidade”, afirma o consultor de marketing esportivo Rajesh Kumar. “Sem Índia e China, a FIFA perde força nos números de alcance mundial que apresenta aos patrocinadores.”

Com a abertura marcada para 11 de junho, cresce a expectativa por um acordo de última hora. Nos bastidores, a avaliação é de que tanto a FIFA quanto as emissoras têm muito a perder caso o impasse continue.

Enquanto não há definição oficial, torcedores em cidades como Pequim e Mumbai já discutem em fóruns online alternativas para acompanhar os jogos, temendo que, pela primeira vez em décadas, a Copa do Mundo não esteja disponível nas telas oficiais de seus países.