De ligação tensa a "unfollow": racha entre Michelle e Flávio Bolsonaro expõe divisão no clã e mobiliza cúpula do PL

Conflito começou por divergências sobre alianças políticas no Ceará, evoluiu para troca de indiretas nas redes sociais, levou Michelle Bolsonaro a deixar de seguir três enteados e obrigou Valdemar Costa Neto a interromper férias nos Estados Unidos para te

Brasília – O que inicialmente era uma divergência interna sobre a estratégia eleitoral do Partido Liberal (PL) no Ceará transformou-se na maior crise pública já registrada entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. O episódio ultrapassou os limites familiares, ganhou repercussão nacional e passou a preocupar a direção da legenda, que vê o desgaste como uma ameaça ao projeto político da direita para as eleições de 2026.

A gravidade do conflito foi tamanha que o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, interrompeu suas férias em Miami, nos Estados Unidos, e antecipou o retorno ao Brasil para conduzir pessoalmente uma tentativa de pacificação. Ainda durante a viagem, admitiu preocupação com o impacto da crise e afirmou que a prioridade era restabelecer a unidade do grupo. Segundo ele, uma divisão interna pode comprometer o desempenho eleitoral do partido e enfraquecer o campo político liderado por Jair Bolsonaro.

O estopim da crise

O rompimento tornou-se público após Michelle Bolsonaro divulgar vídeos relatando ter sido desrespeitada durante uma conversa telefônica com o senador Flávio Bolsonaro.

O motivo da discussão foi a definição das alianças do PL no Ceará. Michelle defendia a manutenção da candidatura da vereadora Priscila Costa ao Senado e se posicionou contra o acordo que levou o partido a apoiar Ciro Gomes na disputa pelo governo estadual.

Segundo o relato da ex-primeira-dama, Flávio afirmou que ela "não entendia de política", que havia "chegado agora" ao partido e deveria permanecer fora das decisões estratégicas da legenda. Michelle também afirmou que passou a ser alvo de ataques organizados nas redes sociais por pessoas ligadas aos enteados, inclusive sendo chamada pelo nome de solteira, Michelle Firmo, em vez de Michelle Bolsonaro.

O "unfollow" que simbolizou o rompimento

Pouco depois da divulgação do desabafo, Michelle promoveu uma mudança significativa em suas redes sociais.

Ela deixou de seguir os enteados Eduardo Bolsonaro, Carlos Bolsonaro e Jair Renan Bolsonaro no Instagram, gesto interpretado como a confirmação pública do rompimento familiar.

A única exceção foi Flávio Bolsonaro, justamente o protagonista da discussão, que permaneceu entre os perfis seguidos pela ex-primeira-dama.

Do outro lado, os filhos do ex-presidente continuaram seguindo Michelle. Eduardo Bolsonaro, porém, compartilhou publicações críticas à madrasta no X (antigo Twitter), repercutindo acusações de que ela estaria insatisfeita por não ter sido escolhida como principal sucessora política de Jair Bolsonaro.

A guerra das mensagens bíblicas

A crise rapidamente migrou para as redes sociais por meio de mensagens com referências religiosas.

Michelle publicou trechos bíblicos sobre falso testemunho e, posteriormente, compartilhou o Salmo 24, destacando a importância de ter "mãos limpas e coração puro".

A resposta veio por intermédio de Fernanda Bolsonaro, esposa de Flávio, que publicou um trecho do livro de Provérbios mencionando que Deus reprova "a testemunha falsa que profere mentiras" e "quem semeia discórdia entre irmãos".

Na sequência, Rogéria Bolsonaro, mãe de Flávio, Eduardo e Carlos, entrou no debate ao publicar uma mensagem em defesa dos filhos, afirmando confiar na honra e na dignidade deles. A postagem foi compartilhada pelos três parlamentares, ampliando a repercussão do conflito.

PL entra em campo para conter os danos

O desgaste levou a direção nacional do PL a agir rapidamente.

Valdemar Costa Neto antecipou seu retorno dos Estados Unidos para coordenar reuniões com Michelle e Flávio Bolsonaro. Nos bastidores, a avaliação é de que o conflito pode afetar principalmente o eleitorado feminino, segmento em que Michelle se consolidou como uma das principais lideranças da direita.

Diante da repercussão negativa, Flávio Bolsonaro divulgou um vídeo pedindo desculpas à madrasta e afirmou que jamais teve a intenção de desrespeitá-la.

Também nos bastidores, Jair Bolsonaro conversou com o filho e pediu uma trégua imediata, buscando impedir que o embate familiar continuasse produzindo desgaste político em um momento considerado estratégico para a reorganização do partido.

Mais do que uma disputa familiar

Embora tenha começado em torno das articulações eleitorais no Ceará, a crise expôs divergências sobre os rumos do PL, o espaço político ocupado por Michelle Bolsonaro e a condução das estratégias para 2026.

Ao obrigar o presidente nacional da legenda a interromper uma viagem internacional para administrar o conflito, o episódio deixou de ser apenas uma disputa doméstica e passou a representar um teste para a capacidade de articulação e unidade do principal grupo de oposição ao governo federal.