Braskem entra com recuperação extrajudicial e enfrenta uma das maiores dívidas corporativas do Brasil

Petroquímica busca reestruturar mais de US$ 10 bilhões em dívidas e terá 90 dias de proteção para negociar com credores

A Braskem protocolou nesta segunda-feira (24) um pedido de recuperação extrajudicial na Justiça de São Paulo para tentar reestruturar uma dívida superior a US$ 10 bilhões, equivalente a mais de R$ 54 bilhões. A medida coloca uma das maiores empresas petroquímicas da América Latina no centro de uma das mais relevantes renegociações de dívida empresarial em andamento no país.

O pedido ocorre justamente no dia em que terminava o período de 60 dias de proteção contra credores obtido anteriormente pela companhia. Com a recuperação extrajudicial, a Braskem passa a contar com mais 90 dias de proteção para negociar e estruturar um plano definitivo de reestruturação financeira.

Segundo informações divulgadas nesta segunda, cerca de US$ 7 bilhões do passivo envolvido estão nas mãos de detentores de títulos de dívida no exterior, conhecidos como bondholders. Esse grupo representa uma parcela importante das negociações e vinha apresentando resistência à proposta inicial da companhia, que previa principalmente o alongamento dos prazos e períodos de carência.

Recuperação extrajudicial não significa paralisação da empresa

A medida adotada pela Braskem tem escopo essencialmente financeiro. As obrigações da companhia com fornecedores, clientes e demais parceiros continuam vigentes e, segundo a empresa, seguem sendo cumpridas normalmente.

Na prática, a recuperação extrajudicial permite que a companhia negocie diretamente com seus credores as condições para reorganizar o passivo, buscando ganhar tempo e criar uma estrutura financeira considerada sustentável.

Para que o plano definitivo seja aprovado, será necessária a adesão de mais de 50% dos credores em cada classe de dívida. A companhia precisava ainda de apoio mínimo de credores para protocolar o pedido, etapa que foi alcançada após as negociações realizadas nos últimos dias.

Braskem não é o maior caso de recuperação extrajudicial do Brasil

Apesar do tamanho da dívida, a Braskem não assume o recorde brasileiro de maior recuperação extrajudicial.

O posto pertence atualmente à Raízen, que protocolou em março de 2026 uma recuperação extrajudicial envolvendo aproximadamente R$ 65,1 bilhões em dívidas financeiras. O caso superou o antigo recorde da Intercement, de cerca de R$ 21,9 bilhões.

Com mais de R$ 54 bilhões envolvidos, a Braskem passa, portanto, a figurar entre os maiores processos de reestruturação extrajudicial já registrados no país.

O cenário mostra o tamanho da pressão financeira enfrentada por grandes corporações brasileiras. A própria Braskem possui uma estrutura de dívida majoritariamente denominada em dólar, enquanto enfrenta um ambiente internacional desfavorável para o setor petroquímico e impactos financeiros relacionados à operação da subsidiária mexicana.

Crise financeira mesmo após lucro bilionário

A situação chama atenção porque a companhia conseguiu registrar lucro líquido de R$ 3,33 bilhões no segundo trimestre de 2026, revertendo resultado negativo anterior. O desempenho operacional, porém, não foi suficiente para eliminar a pressão provocada pelo elevado endividamento.

A Braskem também enfrenta consequências financeiras relacionadas à sua subsidiária mexicana, a Braskem Idesa, que entrou com pedido de proteção nos Estados Unidos para reestruturar aproximadamente US$ 920 milhões em dívidas.

Outro fator que pesa sobre a companhia são os passivos relacionados ao desastre geológico provocado pela mineração de sal-gema em Maceió, que gerou evacuações de áreas da capital alagoana e elevados custos de indenizações e reparações.

Mercado acompanha próximos passos

A recuperação extrajudicial abre agora uma nova fase para a Braskem. A empresa terá de construir uma proposta capaz de obter o apoio necessário dos diferentes grupos de credores.

Os detentores de títulos internacionais concentram aproximadamente 65,3% da dívida, enquanto bancos e agências respondem por cerca de 26,8%, o que dá aos grandes credores papel decisivo nas negociações.

O tamanho da operação também coloca a Braskem em posição de destaque no histórico recente das grandes reestruturações empresariais brasileiras.

O caso da petroquímica, porém, tem uma diferença importante em relação a uma recuperação judicial tradicional: o objetivo é reorganizar o passivo financeiro e preservar a operação da empresa, e não interromper suas atividades.

Com dezenas de bilhões de reais em jogo, os próximos 90 dias serão decisivos para definir se a Braskem conseguirá alcançar um acordo com seus credores e reorganizar sua estrutura de capital sem recorrer a uma recuperação judicial mais ampla.