Lula ensina Renata Vasconcellos a fazer pergunta e vira alvo de críticas por mansplaining

Presidente contestou ao vivo uma pergunta sobre dívida pública e sugeriu como a jornalista deveria abordar o assunto; postura foi considerada condescendente por Natuza Nery e repercutiu em diversos veículos


A participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na sabatina do Jornal Nacional, na noite desta quinta-feira (27), ficou marcada por um momento de tensão com a apresentadora Renata Vasconcellos.

Ao ser questionado sobre o crescimento da dívida pública e as metas de seu eventual próximo governo para estabilizar o indicador, Lula não iniciou a resposta apresentando números ou objetivos. O presidente preferiu contestar a maneira como a pergunta havia sido formulada.

“Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente”, afirmou Lula.

Na sequência, o presidente sugeriu o questionamento que gostaria de ter ouvido, destacando os resultados fiscais registrados em seus dois primeiros mandatos.

“Você poderia dizer: ‘Presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu primeiro mandato’”, completou.

A maneira como Lula respondeu foi interpretada por críticos como uma tentativa de desqualificar a pergunta e ensinar uma profissional experiente a exercer o próprio trabalho. O episódio rapidamente circulou nas redes sociais e ganhou espaço em portais nacionais.

Natuza Nery aponta mansplaining

Após a entrevista, durante o programa Central das Eleições, da GloboNews, a jornalista Natuza Nery afirmou ter se incomodado com a postura do presidente.

Segundo Natuza, Lula tentou explicar a Renata Vasconcellos como ela deveria formular a pergunta. A comentarista classificou o comportamento como “mansplaining”.

“Na primeira parte tem um momento que me incomodou, que é quando ele não concorda com a pergunta que a Renata faz e tenta explicar a maneira como ela deveria fazer a pergunta para ele. Tem um nome para isso, que é o mansplaining”, declarou Natuza, conforme reproduzido pelo Metrópoles.

O termo mansplaining é utilizado para descrever situações em que um homem explica algo a uma mulher de maneira considerada condescendente, presumindo que ela não domina o assunto — mesmo quando se trata de uma profissional experiente.

Discurso usado por setores progressistas se volta contra Lula

A repercussão ganhou um componente político por envolver uma expressão amplamente difundida por movimentos feministas e por setores progressistas, historicamente mais próximos do campo político de Lula.

Nas redes sociais, críticos apontaram uma suposta contradição: comportamentos semelhantes, quando praticados por adversários do PT, costumam provocar manifestações de militantes e lideranças ligadas à esquerda. Desta vez, o presidente passou a ser enquadrado no mesmo conceito.

Isso não significa, entretanto, que exista consenso sobre a classificação. Parte dos internautas considerou a resposta deselegante e paternalista; outros argumentaram que Lula apenas reagiu a uma pergunta cuja premissa considerava equivocada. Portanto, o uso do termo mansplaining representa uma interpretação sobre o comportamento do presidente, e não uma constatação objetiva.

Repercussão em outros veículos

A Veja destacou que Lula foi criticado por tentar “ensinar” Renata Vasconcellos a formular a pergunta. Segundo a publicação, internautas classificaram a atitude como inadequada e indelicada.

O Metrópoles repercutiu diretamente a análise de Natuza Nery e contextualizou o momento em que o presidente sugeriu uma nova formulação para o questionamento.

Já o Terra observou que Lula não teve a mesma reação considerada “disciplinadora” diante do apresentador César Tralli, também responsável pela sabatina.

Em uma avaliação mais ampla, o UOL descreveu o presidente como combativo e afirmou que ele deixou de lado o estilo “Lulinha paz e amor”, assumindo uma postura ofensiva durante a entrevista.

Debate ultrapassa a resposta econômica

O episódio acabou desviando parte da atenção do conteúdo econômico da resposta. Em vez de permanecer restrita à discussão sobre dívida pública, superávit e equilíbrio fiscal, a repercussão passou a se concentrar no tratamento dispensado à apresentadora.

Em uma campanha eleitoral na qual o voto feminino possui peso decisivo, a cena também pode produzir desgaste político. A reação mostra que conceitos usados frequentemente para criticar adversários podem alcançar qualquer liderança pública — inclusive aquelas identificadas com os grupos que ajudaram a popularizá-los.