Dívida em alta, inadimplência recorde e empresas em recuperação acendem alerta no governo Lula

Dívida bruta alcança 81,9% do PIB, número de consumidores negativados chega a 83,9 milhões e mais de 6,3 mil empresas enfrentam recuperação judicial

Uma frase atribuída ao ex-ministro da Fazenda Delfim Netto dizia que o Brasil não teria competência nem mesmo para se autodestruir. A declaração bem-humorada traduzia a capacidade do país de sobreviver aos sucessivos erros cometidos na condução econômica.

Entretanto, três indicadores recentes mostram que a economia brasileira atravessa um momento delicado durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva: o crescimento da dívida pública, o recorde de consumidores inadimplentes e a manutenção de milhares de empresas em recuperação judicial.

Os números, isoladamente, não significam que uma crise econômica seja inevitável. Quando analisados em conjunto, porém, revelam pressões sobre as contas públicas, as famílias e o setor produtivo.

Dívida pública chega a R$ 10,8 trilhões

O primeiro sinal está nas contas do governo. A Dívida Bruta do Governo Geral atingiu 81,9% do Produto Interno Bruto em junho de 2026, o equivalente a aproximadamente R$ 10,8 trilhões.

O percentual estava em aproximadamente 72% do PIB no fim de 2022, antes do início do terceiro mandato de Lula. Isso representa uma elevação próxima de dez pontos percentuais durante a atual gestão.

Segundo o Banco Central, somente em junho a dívida avançou 0,9 ponto percentual. O crescimento foi provocado principalmente pela incorporação dos juros, pelas emissões líquidas de dívida e pelo resultado fiscal. Nos 12 meses encerrados em junho, os juros nominais pagos pelo setor público chegaram a R$ 1,16 trilhão, ou 8,8% do PIB. Banco Central

A combinação de juros elevados, déficits públicos e aumento das despesas torna mais difícil estabilizar a relação entre dívida e PIB. Quanto maior o endividamento, maior tende a ser o volume de recursos destinado ao pagamento de juros, reduzindo o espaço para investimentos e políticas públicas.

Inadimplência alcança 83,9 milhões de brasileiros

A crise também aparece dentro das casas. O Brasil encerrou julho de 2026 com 83,9 milhões de consumidores negativados, maior número registrado desde o início da série histórica da Serasa.

Foram 19 meses consecutivos de crescimento da inadimplência. As faixas entre 26 e 40 anos e entre 41 e 60 anos representam, cada uma, 33,2% dos consumidores com restrições financeiras.

O recorde evidencia a dificuldade enfrentada por milhões de famílias para conciliar renda, despesas básicas, empréstimos, financiamentos e cartão de crédito. O alto custo do crédito contribui para transformar atrasos menores em dívidas difíceis de serem quitadas. Serasa

Embora o governo tenha lançado programas de renegociação, os indicadores mostram que essas iniciativas ainda não conseguiram reverter o crescimento do número de brasileiros com o nome negativado.

Mais de 6,3 mil empresas em recuperação judicial

O terceiro sinal vem do setor empresarial. O Brasil encerrou junho com 6.341 empresas em recuperação judicial ativa, segundo o Monitor RGF-BizDoc.

O número representa crescimento de 6,2% no primeiro semestre de 2026, em comparação com dezembro de 2025. Em maio, o estoque chegou ao recorde de 6.513 empresas, antes de recuar para 6.341 em junho.

O avanço tem sido mais forte entre micro e pequenas empresas. Juros elevados, crédito restrito, endividamento acumulado e dificuldades para reorganizar o fluxo de caixa estão entre os fatores que levam companhias ao Judiciário. Monitor RGF-BizDoc, repercutido pelo Poder360

Governo Lula diante do desafio

Os indicadores não podem ser atribuídos exclusivamente a uma única decisão ou autoridade. Juros, cenário internacional, decisões do Congresso, comportamento do crédito e problemas acumulados de governos anteriores também influenciam a economia.

Ainda assim, cabe ao governo Lula conduzir a política fiscal, controlar despesas, melhorar a credibilidade das contas públicas e criar condições para o crescimento sustentável.

O Brasil pode, como dizia Delfim Netto, sobreviver novamente às “barbeiragens” econômicas. Mas dívida pública crescente, famílias sem conseguir pagar suas contas e empresas buscando proteção judicial deixam um aviso: confiar somente na capacidade brasileira de resistir pode ser uma aposta perigosa.