Janaína minimiza escolha de suplente investigado e diz que é criticada por tudo

Candidata tenta tratar composição da chapa como decisão partidária, mas eleitor não vota apenas no titular: suplente pode assumir o Senado e exercer o mandato por até oito anos


A deputada estadual e candidata ao Senado Janaína Riva (MDB) tentou minimizar as críticas provocadas pela escolha do empresário Danilo Trento como seu primeiro suplente. Ao comentar a repercussão, afirmou que é “criticada por tudo” e procurou separar sua candidatura do histórico dos integrantes da chapa.

A resposta expõe uma das vísceras da política: partidos fazem composições nos bastidores, acomodam interesses e, quando os nomes escolhidos provocam reação, apresentam tudo como um acordo coletivo pelo qual ninguém parece querer assumir integralmente a responsabilidade.

Trento foi investigado pela Polícia Federal por suspeitas relacionadas às fraudes nos descontos de aposentados e pensionistas do INSS. Segundo informações publicadas pela Folha de S.Paulo, relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras apontaram que ele teria recebido R$ 19,2 milhões da J&F.

O empresário também foi indiciado pela CPI da Pandemia, em 2021, em apurações relacionadas à negociação de vacinas. É importante registrar que investigação ou indiciamento não representam, por si só, uma condenação judicial definitiva.

Mesmo assim, o histórico do escolhido é uma questão de interesse público e não pode ser tratado como um detalhe menor de campanha.

Suplente não é figura decorativa

Ao justificar a composição, Janaína afirmou que a definição não teria sido uma escolha exclusivamente pessoal, mas resultado de entendimentos políticos e conversas entre lideranças do MDB.

“Não vou entrar no mérito de questões individuais envolvendo qualquer integrante da chapa. Cada pessoa responde por seus próprios atos. Eu respondo pela minha trajetória, pelas minhas propostas e pelo mandato que pretendo exercer. Quem está disputando o voto e estará na linha de frente, se eleita, sou eu”, declarou.

A explicação, porém, não encerra o assunto. Em uma eleição para o Senado, o eleitor não vota apenas no candidato titular. Vota em uma chapa completa, formada pelo titular e seus dois suplentes.

Caso a senadora eleita se licencie, renuncie, seja nomeada para outro cargo, perca o mandato ou fique impossibilitada de exercê-lo, é o suplente quem assume a cadeira. Dependendo das circunstâncias, ele poderá permanecer no Senado durante parte significativa dos oito anos de mandato.

Portanto, apresentar o suplente como uma questão individual ou secundária significa diminuir a importância de uma escolha que pode produzir consequências concretas para Mato Grosso.

Quem escolhe também precisa responder

É correto afirmar que cada pessoa responde juridicamente pelos próprios atos. Entretanto, responsabilidade jurídica e responsabilidade política são coisas diferentes.

Janaína não pode ser responsabilizada por eventuais condutas pessoais atribuídas a Danilo Trento. Mas pode — e deve — ser questionada pela decisão política de aceitar seu nome na chapa.

A candidata deseja receber os votos, liderar a campanha e ocupar o mandato. Por isso, também precisa explicar quem poderá substituí-la no Senado. Não basta dizer que a definição passou pelo partido, como se a composição tivesse surgido sozinha e sem a concordância da candidata principal.

A escolha de Trento ocorreu após a Justiça Eleitoral considerar inaptos os nomes anteriormente apresentados para a suplência, Aluizo Lima e Ibrahim Zaher. A substituição, portanto, não foi apenas uma formalidade: tornou-se uma decisão política relevante em uma chapa que pretende representar Mato Grosso no Congresso Nacional.

“Sou criticada por tudo”

A afirmação de que é “criticada por tudo” tenta deslocar o centro da discussão. O problema não é a existência de críticas pessoais contra Janaína, mas a legitimidade das perguntas feitas sobre quem integra sua chapa.

Quem disputa uma vaga no Senado precisa estar preparado para prestar contas de suas escolhas, principalmente quando um suplente é associado publicamente a investigações de grande repercussão nacional.

Questionar essa composição não é perseguição. É fiscalização democrática.

O eleitor tem o direito de saber quem está por trás da candidatura, quais acordos foram firmados e quem poderá assumir o mandato caso a titular deixe temporária ou definitivamente o cargo.

Janaína pode afirmar que estará na linha de frente, mas não estará sozinha na urna. O voto dado à candidata também alcança seus suplentes. Essa é a parte que nenhum acordo partidário, reclamação contra críticas ou tentativa de minimizar a controvérsia consegue apagar.