Crise bancária derruba presidente do Paraguai: Santiago Peña renuncia após escândalo comparado ao Banco Master

Quebra do Ueno Bank, instituição ligada anteriormente ao presidente, atinge quase 3 milhões de clientes, coloca recursos públicos em risco e provoca uma crise institucional. Caso apresenta semelhanças com o escândalo do Banco Master no Brasil.


O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma grave crise política e financeira provocada pelo colapso do Ueno Bank, um dos principais bancos digitais do país. O escândalo, que já é comparado ao caso do Banco Master no Brasil, desencadeou protestos populares, investigações sobre supostas irregularidades financeiras e a perda de sustentação política do governo.

A decisão foi anunciada por Peña em uma mensagem divulgada nas redes sociais, enquanto a Câmara dos Deputados discutia um processo de impeachment contra o mandatário. O presidente formalizou a renúncia junto ao Congresso, responsável por analisar sua aceitação.

O episódio ganhou repercussão internacional pela dimensão dos prejuízos potenciais, pelo envolvimento de recursos públicos e pelas antigas relações empresariais entre o presidente e o grupo controlador da instituição financeira.

Como começou a crise que derrubou o presidente

O centro do escândalo é o Ueno Bank, instituição financeira que registrou crescimento acelerado nos últimos anos e conquistou aproximadamente 3 milhões de clientes, número equivalente a uma parcela expressiva da população adulta paraguaia.

O banco expandiu suas operações por meio de serviços digitais, benefícios comerciais e estratégias agressivas de atração de clientes.

Entretanto, o crescimento passou a despertar questionamentos sobre a qualidade dos ativos, a concessão de empréstimos a empresas relacionadas aos controladores e a capacidade financeira da instituição de cumprir suas obrigações.

O Banco Central do Paraguai identificou problemas na estrutura de solvência do Ueno, incluindo insuficiência de capital em relação aos riscos assumidos.

Em 2 de novembro, a autoridade monetária decidiu iniciar o procedimento de resolução do banco. A medida foi anunciada publicamente no dia seguinte, quando clientes passaram a enfrentar dificuldades para movimentar suas contas.

A intervenção provocou filas, insegurança entre correntistas e manifestações de pessoas preocupadas com a possibilidade de perder suas economias.

Dinheiro público e aposentadorias entram no centro da investigação

Um dos pontos mais delicados do escândalo envolve os recursos públicos depositados na instituição.

O Ueno Bank administrava aproximadamente US$ 800 milhões a US$ 850 milhões em depósitos de origem pública, incluindo valores ligados ao sistema previdenciário e de saúde do Paraguai.

A presença desses recursos ampliou a dimensão política do problema.

As investigações procuram esclarecer se houve favorecimento institucional, falhas de fiscalização ou decisões que permitiram à instituição assumir riscos incompatíveis com sua capacidade financeira.

Autoridades paraguaias iniciaram procedimentos criminais envolvendo dirigentes e pessoas relacionadas à administração do banco.

As suspeitas ainda precisam ser examinadas judicialmente, respeitando-se o direito de defesa dos investigados.

Qual é a ligação de Santiago Peña com o banco?

A situação política do presidente se agravou porque ele manteve participação empresarial no Grupo Vázquez, ligado ao Ueno Bank, até março de 2025.

Embora essa relação tenha sido encerrada antes da crise atual, opositores passaram a questionar possíveis conflitos de interesses e a atuação das autoridades responsáveis pela fiscalização bancária.

Outro elemento que aumentou a pressão foi a ligação profissional anterior de Carlos Carvallo, então presidente do Banco Central paraguaio, com a instituição financeira.

Carvallo também deixou o cargo durante o agravamento da crise.

O presidente passou a enfrentar acusações políticas relacionadas à fiscalização do banco, à proteção dos recursos públicos e à responsabilidade de seu governo diante do colapso financeiro.

Peña negou irregularidades relacionadas à sua antiga participação empresarial.

Impeachment e renúncia: a queda do governo

A pressão contra Santiago Peña ultrapassou os partidos de oposição.

Setores do próprio Partido Colorado, legenda do presidente e principal força política do Paraguai, passaram a defender sua saída.

Na quinta-feira (5), deputados aprovaram o avanço do processo de impeachment, em uma demonstração da perda de apoio político do mandatário.

Diante do agravamento da crise, Peña anunciou sua decisão de renunciar, justificando a medida como necessária à estabilidade institucional e à preservação da paz social.

A renúncia depende de aceitação pelo Congresso.

Pela ordem constitucional, o vice-presidente Pedro Alliana é o sucessor previsto para completar o mandato presidencial, que termina em agosto de 2028.

A crise, contudo, poderá continuar produzindo consequências políticas, já que o próprio vice-presidente também enfrenta questionamentos de parlamentares.

Por que o escândalo é comparado ao Banco Master brasileiro?

A dimensão da crise levou parte da imprensa a chamar o Ueno Bank de "Master do Paraguai".

A referência é ao Banco Master, instituição brasileira que teve sua liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central em novembro de 2025.

O banco brasileiro, controlado pelo empresário Daniel Vorcaro, tornou-se alvo de investigações envolvendo suspeitas de irregularidades financeiras, operações de crédito e negociações com o Banco de Brasília (BRB).

Um dos principais pontos investigados no Brasil foi a negociação de carteiras de crédito entre o Master e o BRB, instituição controlada pelo Governo do Distrito Federal.

A Polícia Federal passou a investigar suspeitas de fraudes bilionárias nessas operações.

A tentativa de aquisição do Master pelo BRB também enfrentou resistência regulatória e acabou barrada pelo Banco Central.

No Paraguai, o Ueno Bank enfrenta questionamentos sobre operações com partes relacionadas, insuficiência de capital e concentração de recursos públicos.

Embora existam semelhanças nos mecanismos de crescimento e nos riscos identificados, não há comprovação de que os dois escândalos tenham ligação operacional ou participação dos mesmos envolvidos.

A comparação é financeira e institucional.

O que os dois casos revelam sobre a fiscalização bancária?

Os episódios levantam questionamentos semelhantes sobre os mecanismos de controle do sistema financeiro.

O primeiro envolve a capacidade dos órgãos reguladores de acompanhar bancos que apresentam expansão acelerada de suas operações.

O segundo diz respeito à qualidade dos ativos utilizados para sustentar esse crescimento.

O terceiro está relacionado à exposição de recursos públicos a instituições financeiras que posteriormente apresentam graves dificuldades.

No Brasil, a crise do Master colocou sob investigação operações envolvendo um banco público e levantou discussões sobre a atuação de dirigentes e órgãos fiscalizadores.

No Paraguai, as consequências políticas foram imediatas e chegaram ao ponto de provocar a renúncia do presidente da República.

Os desdobramentos evidenciam como dificuldades financeiras em instituições bancárias podem ultrapassar o mercado e atingir diretamente a confiança da população nas estruturas do Estado.

O que acontece agora no Paraguai?

O futuro imediato do país depende de três frentes principais.

A primeira é institucional: o Congresso deve concluir os procedimentos relacionados à renúncia presidencial e à sucessão do governo.

A segunda é financeira: o Banco Central paraguaio precisa organizar os mecanismos de proteção aos depositantes e a recuperação dos recursos disponíveis.

A terceira é judicial: as autoridades deverão aprofundar as investigações para determinar responsabilidades pela situação do Ueno Bank.

O Banco Central já anunciou procedimentos para iniciar os pagamentos cobertos pelo sistema de garantia de depósitos.

A prioridade é reduzir os impactos sobre famílias, trabalhadores, aposentados e demais clientes que ficaram sem acesso aos recursos.

Uma crise que ultrapassa as fronteiras do Paraguai

O escândalo ocorre em um momento em que o Paraguai busca ampliar sua presença econômica regional, atrair investimentos internacionais e consolidar sua imagem de estabilidade financeira.

Para o Brasil, especialmente para estados com relações comerciais e empresariais com o país vizinho, como Mato Grosso, os desdobramentos merecem acompanhamento.

A instabilidade pode afetar a percepção dos investidores sobre o ambiente de negócios paraguaio, embora os efeitos econômicos concretos ainda dependam da evolução da crise.

A renúncia de Santiago Peña representa um dos acontecimentos políticos mais importantes da América do Sul em 2026.

Mais do que a queda de um presidente, o episódio coloca em debate a relação entre instituições financeiras, poder político, recursos públicos e responsabilidade dos mecanismos de fiscalização.

Fontes: Banco Central do Paraguai (BCP), Banco Central do Brasil (BCB), Associated Press, Reuters e imprensa paraguaia.