Pau na nuca não foi na convenção, mas veio pela PF? Operação Heritage muda o jogo após vitória de Mauro

Bastidores da política | Júlio Campos havia prometido reação contra grupo de Mauro Mendes; dias depois, Operação Heritage atingiu o ex-governador e aliados

O “pau na nuca” prometido por Júlio Campos (União Brasil) contra o grupo do ex-governador Mauro Mendes não aconteceu da forma que muitos imaginavam dentro do partido. Não veio por meio de uma derrota na convenção, nem pela retirada de Mauro da disputa ao Senado. Mas, poucos dias depois da vitória interna de Mauro, uma operação da Polícia Federal colocou o grupo novamente no centro de uma turbulência política.

A coincidência de datas alimentou os bastidores.

Júlio havia endurecido o discurso contra Mauro durante a disputa interna do União Brasil, principalmente na tentativa de garantir espaço para o irmão, o senador Jayme Campos, disputar o Governo de Mato Grosso. O grupo dos Campos acabou derrotado na convenção, e o partido decidiu apoiar a candidatura à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos).

A convenção ocorreu antes da deflagração da Operação Heritage.

Na quinta-feira, 6 de agosto, a Polícia Federal deflagrou a operação que investiga possíveis irregularidades envolvendo um acordo entre o Governo de Mato Grosso e a empresa Oi. Mauro Mendes foi um dos alvos da investigação, assim como o deputado federal Fábio Garcia e outros nomes ligados ao caso.

O episódio imediatamente ganhou repercussão política.

E Júlio Campos fez questão de aparecer no cenário. O deputado passou pela frente da sede da Polícia Federal em Cuiabá durante a movimentação da operação e publicou uma postagem irônica nas redes sociais questionando o que estaria acontecendo no local. O gesto ocorreu poucos dias depois da derrota do grupo dos Campos na convenção do União Brasil.

“Se fosse antes, Mauro não seria candidato”

Nesta quarta-feira (12), Júlio foi ainda mais direto.

Durante sessão na Assembleia Legislativa, afirmou que Mauro Mendes provavelmente não teria sido confirmado candidato ao Senado caso a Operação Heritage tivesse sido realizada antes da convenção partidária.

Segundo Júlio, a decisão judicial que autorizou a operação teria sido assinada pelo ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, em 13 de julho, enquanto o cumprimento das medidas ocorreu somente em 6 de agosto — depois da convenção.

“Eles foram de muita sorte”, afirmou o deputado, ao comentar o calendário dos acontecimentos.

A declaração acrescentou uma nova dimensão à antiga provocação.

O “pau na nuca” ganhou outro significado

Quando Júlio Campos falou em “pau na nuca”, a ameaça estava relacionada à disputa política dentro do União Brasil. A intenção era usar a força do grupo dos Campos para impedir ou dificultar a candidatura de Mauro ao Senado caso Jayme fosse retirado da disputa pelo Governo.

A estratégia, porém, não funcionou.

Mauro venceu a queda de braço interna. Jayme ficou fora da disputa pelo Palácio Paiaguás e o União Brasil decidiu apoiar Pivetta.

Só que, menos de uma semana depois, veio a Operação Heritage.

O próprio Júlio agora associa os dois episódios ao afirmar que a operação poderia ter mudado completamente o resultado da convenção se tivesse ocorrido antes.

É aí que surge, nos bastidores, a provocação:

será que o “pau na nuca” não veio pela política, mas acabou vindo pela Polícia Federal?

A resposta, obviamente, pertence ao terreno da interpretação política. Não há indicação de que Júlio Campos tivesse conhecimento prévio da operação ou que sua declaração estivesse relacionada à investigação.

Mas o fato é que a sequência dos acontecimentos criou uma narrativa difícil de ignorar.

Convenção, derrota e Heritage

Primeiro, os Campos perderam a disputa interna.

Depois, Mauro confirmou sua candidatura ao Senado e o União Brasil fechou apoio a Pivetta.

Na sequência, a Polícia Federal deflagrou a Heritage e colocou Mauro novamente sob forte pressão política.

E agora Júlio afirma publicamente que, se a operação tivesse ocorrido antes, o resultado da convenção poderia ter sido diferente.

Enquanto isso, o União Brasil segue dividido.

Júlio chegou a ironizar a situação dizendo que “aqui se faz, aqui se paga”, ao comentar a derrota política dos Campos e a operação que atingiu o grupo de Mauro.

A política ainda não terminou

A Operação Heritage não significa, por si só, impedimento eleitoral ou condenação de Mauro Mendes. Trata-se de uma investigação, e os fatos ainda deverão ser apurados pelas autoridades competentes.

Politicamente, porém, o impacto já existe.

A operação recolocou Mauro no centro do noticiário negativo justamente quando ele havia acabado de vencer uma das principais batalhas internas de sua carreira política.

Por isso, a frase de Júlio Campos ganhou uma espécie de segundo capítulo.

O “pau na nuca” não aconteceu na convenção. Mas, depois da vitória de Mauro, veio a Heritage.

E agora a pergunta que ecoa nos bastidores de Mato Grosso é outra:

foi apenas uma coincidência de calendário ou a Operação Heritage acabou produzindo exatamente o fato político que os Campos não conseguiram produzir dentro do União Brasil?