IPOs viram retrato do contraste: era Bolsonaro teve 78 estreias na B3; Lula registra apenas uma

Apoiadores de Bolsonaro apontam “sucesso” do mercado de capitais em seu governo, enquanto críticos classificam desempenho sob Lula como “vexame”; números mostram diferença gigantesca, mas seca de IPOs começou ainda em 2021

O mercado de abertura de capital brasileiro apresenta um dos contrastes econômicos mais expressivos entre os governos Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

Considerando IPOs de ações realizados na B3 — sem contabilizar BDRs nem ofertas subsequentes, os chamados follow-ons — o período do governo Bolsonaro terminou com 78 empresas estreando na Bolsa. Já o terceiro governo Lula registrou, até 27 de setembro de 2026, apenas uma abertura de capital.

Os números passaram a alimentar uma leitura política direta: apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro classificam o resultado de seu período como um sucesso do ambiente de negócios, enquanto críticos do atual governo tratam a longa paralisia como um “vexame” para Lula na área econômica.

A diferença numérica, de fato, é enorme.

Em 2019, primeiro ano de Bolsonaro, cinco companhias realizaram IPOs no Brasil. Entre elas estavam Neoenergia, Centauro, C&A, Vivara e Banco BMG. (Folha de S.Paulo⁠)

No ano seguinte, mesmo com a pandemia da Covid-19 provocando uma crise econômica mundial, o número saltou para 28 IPOs. A própria B3 registra que as ofertas iniciais e os follow-ons realizados em 2020 movimentaram R$ 117,7 bilhões. (B3⁠)

Vieram naquele ciclo empresas como Locaweb, Petz, Rede D’Or, Grupo Mateus, Méliuz, Ambipar, Pague Menos, Grupo Soma, Quero-Quero e Boa Vista.

Auge durante Bolsonaro

O auge ocorreu em 2021.

A B3 registrou 45 IPOs de empresas no mercado doméstico, o maior número desde 2007. A própria Bolsa destacou naquele momento o recorde de abertura de capital e o crescimento da participação de investidores pessoa física. (B3⁠)

Naquele ano chegaram ao mercado nomes como Intelbras, CSN Mineração, Smart Fit, Orizon, ClearSale, Desktop, Raízen, PetroReconcavo e Vittia.

A Vittia estreou em 2 de setembro de 2021. Na ocasião, a B3 informou oficialmente que ela era a 45ª companhia a fazer IPO naquele ano. (B3⁠)

Somados os cinco IPOs de 2019, os 28 de 2020 e os 45 de 2021, são 78 estreias no período Bolsonaro pelo recorte que exclui BDRs.

Há levantamentos da própria B3 que apresentam 46 operações em 2021 porque utilizam metodologia diferente e incluem operações como o BDR do Nubank. Para comparar empresas que efetivamente abriram capital com ações na B3, o número de 45 é o mais adequado ao recorte utilizado nesta reportagem. (B3⁠)

A festa acabou ainda no governo Bolsonaro

Há, porém, um dado indispensável para uma comparação séria.

O mercado de IPOs travou antes de Lula assumir.

Depois da Vittia, em setembro de 2021, nenhuma nova companhia brasileira voltou a estrear na B3 até maio de 2026. Isso significa que todo o ano de 2022, último ano de Bolsonaro, também passou sem IPO de ações na Bolsa brasileira. (UOL Economia⁠)

Portanto, seria incorreto atribuir a paralisação exclusivamente ao governo Lula.

O próprio ciclo de sucesso observado nos primeiros anos de Bolsonaro ocorreu em um cenário excepcional de juros baixos. Em agosto de 2020, por exemplo, o Banco Central reduziu a Selic para 2% ao ano, nível que estimulava investidores a buscar maior rentabilidade em ativos de risco, como ações. (Banco Central do Brasil⁠)

Quando os juros começaram a subir, a janela de IPOs também começou a fechar.

Lula assume — e o mercado continua fechado

Se Lula herdou a seca, o ponto politicamente mais incômodo para o atual governo é outro: a janela permaneceu fechada por mais de três anos de sua administração.

Em 2023: nenhum IPO.

Em 2024: nenhum IPO.

Em 2025: nenhum IPO.

Somente em maio de 2026 a Compass Gás e Energia conseguiu quebrar o jejum.

A empresa do Grupo Cosan estreou na B3 em 11 de maio, com o ticker PASS3. A oferta movimentou aproximadamente R$ 3,2 bilhões. (B3⁠)

A Compass continua sendo, até setembro, a única nova estreia relevante de companhia na B3 em 2026; a página de acompanhamento de IPOs da própria Bolsa mantém sua abertura como a operação empresarial mais recente desse tipo. (Bora Investir⁠)

O placar do período, portanto, chama atenção:

Bolsonaro: 78 IPOs

Lula: 1 IPO

É esse contraste que sustenta o discurso político de “sucesso Bolsonaro x vexame Lula” no mercado de capitais.

O problema dos juros

A explicação econômica, entretanto, é mais complexa do que o nome do presidente sentado no Palácio do Planalto.

Em setembro de 2026, a Selic ainda está em 13,75% ao ano. O próprio Copom afirma que o cenário apresenta aumento significativo da incerteza, expectativas de inflação desancoradas e riscos elevados. (Banco Central do Brasil⁠)

Compare com os 2% de 2020.

Para o investidor, a diferença é brutal.

Com juros muito altos, títulos de renda fixa conseguem oferecer remuneração elevada com risco muito menor do que ações de uma companhia que está fazendo sua primeira oferta pública.

Para a empresa que pretende abrir capital, isso significa investidores exigindo preços mais baixos pelas ações.

Resultado: muitas companhias simplesmente preferem esperar.

Fiscal também pesa

Outro ponto que ganhou espaço entre investidores durante o governo Lula foi a situação das contas públicas.

Dados divulgados em julho mostraram que o déficit nominal brasileiro chegou a 9,99% do PIB em 12 meses, enquanto a dívida bruta atingiu 81,9% do PIB. A Reuters destacou que preocupações com a sustentabilidade fiscal permaneciam no radar dos investidores. (Reuters⁠)

A agência também relatou, ao analisar a retomada dos IPOs, que juros altos e preocupações com a saúde fiscal do Brasil impediram várias empresas de abrir capital no mercado brasileiro nos últimos anos. (UOL Economia⁠)

É aqui que a discussão deixa de ser apenas estatística e entra diretamente no debate sobre a política econômica do atual governo.

Lula não criou sozinho a seca de IPOs — ela começou durante Bolsonaro.

Mas também não conseguiu revertê-la durante praticamente todo seu terceiro mandato.

Um IPO depois de quase cinco anos

Até mesmo a tão aguardada Compass chegou ao mercado cercada de cautela.

As ações foram precificadas em R$ 28, justamente no piso da faixa indicativa, que chegava a R$ 35. Além disso, a oferta foi secundária: os recursos levantados foram destinados aos acionistas vendedores, e não diretamente ao caixa da companhia. (UOL Economia⁠)

Isso torna a comparação ainda mais simbólica.

Durante os primeiros três anos do governo Bolsonaro, dezenas de companhias procuraram a Bolsa para financiar crescimento, aquisições e expansão.

Durante os primeiros três anos completos do Lula 3, nenhuma conseguiu chegar à B3 por meio de um IPO de ações.

Para a oposição, é material suficiente para falar em vexame econômico. Para os defensores de Bolsonaro, os 78 IPOs registrados em seu mandato se transformam em argumento para apresentar aquele período como um ciclo de sucesso do mercado de capitais.

Os números comprovam o enorme contraste.

O que eles não comprovam, isoladamente, é que um presidente tenha sido o único responsável pelo sucesso ou pelo fracasso: juros, inflação, cenário internacional, condições fiscais e apetite dos investidores exercem influência decisiva.

Ainda assim, para um governo que chegou ao poder prometendo crescimento, investimento e retomada econômica, chegar às últimas semanas de setembro de 2026 com apenas um IPO na B3 é um dado difícil de ignorar.